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19 de maio de 2017

Coli-Cids (Ou Algo Parecido)


Continuando o assunto da última postagem:

Você que comprou o Coli Cids (ou algo parecido) para a "cólica" (Ah, essa cólica!) do seu pequeno rebento notou o que diz na caixa - e também na bula? Ou já foi dando assim, sem mais nem menos, como banana na serra (com todo respeito à senhora)?
Está escrito em algum lugar: "remédio para a cólica" (do recém-nascido, ou de quem quer que seja)? 
Não, está escrito algo como "ajuda a regularizar a flora blá, blá, blá"...
Por que?
Porque a indústria - aquela fabriquinha de esquina chamada Aché - não tem "envergadura moral" para se comprometer (de novo, nem com você, nem com seu bebê, mas principalmente nem com os advogados de associações profissionais como as Sociedades de Pediatria - pelo menos até que "molhem a mão" das pessoas certas dos lugares certos). 
E por que?
Porque, claro, não funciona. Quer dizer, às vezes até funciona. Porque às vezes quase tudo funciona para alguma coisa. Essa é a base conhecida para o uso de outros placebos.
E por que é caro?
Dentre outros motivos, porque a indústria sabe que o caro é mais efetivo como placebo do que o barato. 
E por que, mesmo, que não funciona?
Além dos motivos "bacteriológicos" básicos como os mencionados na postagem anterior, porque ao dar "remédio para a cólica" você precisa primeiro reconhecer o que é exatamente uma "cólica" do recém-nascido (algo mais mal entendido do que brasileiro em Nova Iorque). Não se tratando em 99,9% dos casos de "dor que a criança tem quando chora", não vai resolver mesmo (a não ser nos casos em que resolve "placebamente").
(Só mais dois detalhes "bacteriológicos":


Uma coisa é o lactobacilo "fabricado na sua própria barriguinha" - flora autóctone. Outra coisa é um lactobacilo vindo "de não se sabe onde". Funcionam de forma bem diferente. E aí, o segundo detalhe: você sabe como é "fabricado" o lactobacilo do Coli Cids, ou algo parecido? Não? Então não vou nem te contar, senão seu bebê vai perder o apetite! Só uma dica: estamos falando de bactéria do intestino, não é? Pense você...)

26 de junho de 2007

Duas Medidas


Dois dos sites médicos americanos mais visitados tratando sobre o mesmo assunto: cólicas. Aquele choro intenso dos bebês nos primeiros meses de vida.
Num deles, o WebMD, aprende-se que a cólica pode (deve?) ter relação com alimentos ingeridos pela mãe que amamenta, que a cólica é na maioria das vezes provocada por dores no abdome do bebê que chora e etc. Nota-se um pequeno e “discreto” comercial no centro do texto: Mylicon, tanto lá quanto aqui um remédio (inútil, diga-se de passagem) para as cólicas do lactente*.
No outro site, o da Associação Americana dos Médicos de Família, diz lá a causa do problema: não se sabe (assim mesmo, curto e grosso!). Pelo menos não “chuta”, nem tenta enganar ninguém. Tratamento medicamentoso? “Não há remédio que seja efetivo para cólica”. Nota-se também - e principalmente - a ausência do patrocínio da indústria farmacêutica.
Ah, então, tá...
Patrocinado, é uma coisa.
Sem patrocínio, deve ser outra coisa totalmente diferente.
Pois então!
*O curioso é que neste próprio site há várias outras páginas explicando que cólica não tem a ver com dor, que não há nada de errado com bebês que choram muito, etc, etc.

(há quase 20 anos que eu estou falando isso, acho que tô começando a ficar chato – é que eu ainda sou minoria!)


Tão de Brincadeira

A brincadeirinha da eleição das 7 maravilhas do mundo moderno só pode ser isso mesmo: uma interessante brincadeira (do mesmo tipo que elegeu, por exemplo, o Maradona como melhor jogador de futebol de todos os tempos, à frente de Pelé – Ah, então tá!...).
Em primeiro lugar, como dar o voto quando só se conhece um dos “candidatos” (a maioria dos votantes não deve conhecer nenhum)? Agradeço enormemente à ONG responsável pela eleição o envio das passagens para todos os lugares, para que possamos votar de forma consciente.
Além disso, quem vai votar mais nas suas próprias maravilhas: os petrificados habitantes da Ilha de Páscoa ou os australianos ou os ingleses?
E mais: embora tenha vivido várias vezes a inenarrável experiência da vista do nosso Cristo Redentor, desculpe, mas a estatuazinha – que é nossa real candidata - até que é meio mixuruca (claro, perto das outras concorrentes!). Acho que só não perde para aquele amontoado de pedras toscas do Stonehenge (se era pra incluir a Grã-Bretanha, porque não mandaram o logo o Big Ben?).
Agora me diga: dá pra, ao se deparar com um castelo como o Neuschwanstein (mais fácil de falar do que Schwarzenegger) ou com o Templo de Taj Mahal, honestamente cravar o voto no nosso candidato? Fala sério...

23 de abril de 2013

Barriga ou Cabeça (ou Os Dois?)


Há mais de duas décadas venho lutando - e muitas vezes perdendo - contra a noção de que o bebê bocudo tem dor na sua barriga (cólica, termo que por si só já causa confusão).
Na semana passada, mais uma grande evidência apareceu para justificar a provável ausência de dores. Mas, ao mesmo tempo, mostra a complexidade da cólica dos lactentes:
Bebês muito chorões nos primeiros meses têm uma alta incidência de enxaqueca quando pouco mais velhos.
E aí o interessante é que as mesmas recomendações de estilo de vida (não medicamentosas - pelo menos ainda) para a enxaqueca costumam melhorar os sintomas da cólica. São elas: respeitar horários de sono e alimentação, evitar excessos de estímulos como luzes e ruídos, distração da criança com embalo e massagens (desde que realizados por alguém mais tranquilo que o bebê).
Nada de dieta da mãe. Nada de remédios para dor, ineficazes ou perigosos.
Cólicas melhoram com a idade (por volta dos 3 meses). Já a enxaqueca (upgrade da cólica?) é cíclica, com momentos de melhora e piora na maior parte dos casos.
Lembrando ainda que nas crianças os sintomas enxaquecosos são em muitos dos casos sintomas abdominais (náusea, vômitos e dor abdominal, associados à palidez e/ou alterações do comportamento como tristeza ou irritabilidade). Quando ficam adultos, os sintomas de dores de cabeça sobressaem. 

14 de janeiro de 2006

Chororô


Choro. Nada mais angustiante, quando num bebê. Ainda mais um choro intenso. Ainda mais um choro prolongado. Ainda mais um choro intenso e prolongado. Ainda mais um choro intenso e prolongado naquele serzinho tão frágil... (mas com uma goela!) Ainda mais...
Bem. Choro de bebê novinho é algo para o qual ninguém consegue ficar indiferente. Será que dói alguma coisa? Tá sofrendo, o coitado? Por que chora esta criatura?
Se você leu até aqui e ainda não pensou em cólica ou dor de ouvido, deve ser de outro planeta.
Cólica e dor de ouvido: dois diagnósticos óbvios no lactente de poucos meses. Pergunte pra qualquer vovó e ela lhe dirá. É claro! Se não é uma coisa, é outra!
Mas... Quem disse?
Baseado em quê?
Quem disse que o bebê tem que ter dor quando chora? Ou mesmo que sofre?
- É lógico, não é o teu, né?
Calma, mamãe, também não precisa partir pra agressão, tá?
É óbvio que quando vemos alguém frágil - e que além de tudo não pode se comunicar – chorando, nosso instinto nos faz pensar em dor, sofrimento. Mas, acredite, não é bem assim com os bebês, pelo menos na maioria deles.
Choro é uma forma primitiva de comunicação (felizmente outras formas virão com o passar do tempo, no caso dos bebês). Mas é também, como todos nós sabemos, uma excelente “válvula de escape” para nossas frustrações, medos (racionais e irracionais) e, por que não, até para situações incômodas.
E, assim como em adultos há aqueles “bocudos” (“maria-moles”, “manteigas derretidas”, “Bebetos”, ou como queiram chamar os que choram muito), nos lactentes de poucos meses também há aqueles que necessitam chorar mais do que os outros. Apenas que nos bebês, um “terrível incômodo” pode ser, por exemplo:
• um irmão barulhento
• um irmão muito carinhoso
• uma TV ligada no Domingão
• um cachorro do vizinho
• dois cachorros no vizinho
• uma batida de porta
E, fundamentalmente,
• uma mãe (ou uma família inteira) ansiosa
Agora, faça uma experiência:
Leia o mais rápido que puder, em voz alta e mais de uma vez, os fatores acima.
E aí, percebeu?
Porque é muito provavelmente assim que um cérebrozinho imaturo percebe as coisas a sua volta! Nós, os seres vivos, vivemos de estímulos. Sejam eles visuais, sonoros, auditivos, tácteis, gustativos, olfativos...
Agora, paremos pra pensar: já nascemos com capacidade para separá-los adequadamente, não nos assustarmos com alguns destes estímulos (principalmente porque muitos vêm associados e “em rajadas” para cima do bebê), e mais, compreendermos o que cada um destes estímulos significam?
Espere, não responda, deixe-me responder:
É CLARO QUE NÃO!!!
(desculpe a ênfase, foi mal, pense você...)
Então, pra terminar, vou fazer a pergunta que eu ouço após explicar tudo isso para os pais de bebê que chora:
- E aí, doutor, pode ser cólica (ou dor de ouvido)?
(música de Enia no fundo, por favor, que eu estou meditando um segundo...)
Claro que pode! MAS, principalmente se o bebê está mamando bem (nos intervalos do choro, é claro), dorme bem (nos intervalos do choro, é claro), não tem febre (com ou sem choro, claro), e não está com “carinha de doente” (esta última é melhor perguntar pra alguém “de fora” da casa, pois pais são pais, já viu, né?), provavelmente não tem dor e não sofre no choro (pelo contrário, chora “buscando” se acalmar).
Alguém poderia dizer:
- Engraçado, eu nunca li isso na propaganda do remédio pra cólica!...
Pois é...

8 de abril de 2008

Chato!


Putz!
Não quero parecer
1) presunçoso (loooonge de mim), mas:
Gente, há quase vinte anos venho dizendo (claro, não digo do nada, estudos estão aí nesse período todo) que cólica, cólica, dessas tipo dor na barriga do bebê quase não existem!
E dê-lhe briga com – nesta ordem de freqüência – avós, velhas enfermeiras de maternidade (também elas avós) e propagandistas de laboratórios (dos remédios pra cólicas, claro) que querem porque querem que o bebê que chora muito tenha... dor!
Então, o que a reportagem veiculada no Fantástico do dia 30/03 sobre a “nova” técnica do Dr. Harvey Karp tem de bom é justamente voltar a enfatizar o choro do bebê como um “problema” comportamental, e não relacionado à dor (há, entretanto, que se dar o crédito ao seu mentor, Dr. T. Berry Brazelton, que fala estas coisas há muito mais tempo do que ele - ou mesmo eu).
2) chato (novamente), mas:
Gente, uma pergunta do primeiro programa da Cicarelli na Band, aquela coisa de conhecimentos gerais para jovens.
A pergunta:
-Qual o nome correto do osso situado na garganta dos homens?
Não sabiam (também!...).
A resposta, que devia ser a correta: Pomo de Adão.
Ai!
Então “nome correto” é o que? Termo médico? Que eu soubesse, pomo de Adão é, com boa vontade, um apelido, um nome popular. Agora...
Osso? Era da cartilagem tireóide mesmo que estavam falando? Foi promovida?
Outra: na garganta? Subiu (do pescoço para dentro da garganta?).

E mais: nas mulheres, não tem?
O programa é assessorado por quem? Por alguma... benzedeira?
Aí, muda-se de canal. Para o antigo canal da mesma Cicarelli, a MTV.
Questões - também de conhecimentos gerais - aplicadas pelo “professor” Gordo (infelizmente não o Jô Soares) a adolescentes. De música a literatura, de geografia a ciência básica, entremeadas com conhecimentos televisivos.
Apenas uma palavra ouvida pelos alunos (entre xingamentos dos mais chulos por parte do professor):
-Passa!
Uma maravilha. Se quiserem se arrepiar com o que anda na cabeça (Cabeça? Que cabeça?) dessa geração (pelo menos dos que assistem a este tipo de programação*), confiram.

*Epa! A minha não! Tava só de passagem...

1 de novembro de 2019

Leite "CP" ("Cara de Pau)



Mais um sucesso de vendas. E mais um tremendo desserviço para a saúde infantil.
Não é de se estranhar que coisas desse tipo apareçam a toda hora, pois estamos à mercê das indústrias mesmo.
Estou falando hoje do novo "leitinho" Novamil AC (você pode imaginar o meu surto ao ouvir o anúncio do representante laboratorial sobre a "grande novidade"...).
"AC" do que? De "anti-cólicas". Mais presunçoso o tal leitinho não poderia ser: acabar com o tormento do choro, das "espremeções", das noites sem dormir.
Só pra variar, mais uma vez, usando o foco errado (de quase todo mundo o tempo todo) do funcionamento intestinal "problemático".
Peço para os pais pararem um pouco pra pensar: com a avalanche de produtos destinados à solução da "cólica" dos últimos anos, se o "problema" fosse mesmo intestinal, haveria tanta coisa destinada à mesma finalidade, ou haveria uma só?
É remedinho pra dor, é fitoterápico, é modificador de flora (prés e probióticos), é agora leitinho específico, com mais isso e menos aquilo (nem vou me dar ao trabalho de analisar o que esses "issos e aquilos" significam), e... bebês seguem chorando e se espremendo, e fazendo pais perderem preciosas noites de sono até que... amadurecem!
Já falei várias vezes aqui que as "cólicas" têm quase nada (ou muito pouco) de base intestinal (ou digestiva, ou seja lá o que for). Claro que todos sabemos que um intestino "hiperfuncionante" não é a coisa mais interessante do mundo (experimente isso no meio de uma longa viagem, ou durante uma sessão de cinema, por exemplo).
Mas a "cólica" não vai ser "resolvida" definitivamente enquanto médicos e pais (e a própria mídia) não abordarem o aspecto desenvolvimentista do porquê bebês choram (e se espremem, e fazem pais perderem noites preciosas de sono). 

Por que a minha absoluta revolta com esse produto cara de pau? 

Porque milhares e milhares de mamães deixarão de amamentar seus filhos para usar esse "leitinho milagroso"! Ou você acha que eu exagero?


14 de janeiro de 2006

Raios!


Apesar das fortes evidências (como duas revisões extensas recentes, uma do Pediatrics, e outra do British Medical Journal) a respeito da pouca ou nenhuma eficiência – ou dos riscos - dos “remédios para cólica”, muitas vezes, quando confrontados com o choro intenso dos seus bebês, qualquer resquício de razão se evapora da cabeça dos pais.
No desespero do choro, muitas vezes eles recorrem a remédios perigosos (p. ex, diciclomina, que pode causar convulsões, apnéia ou coma, escopolamina, que muitas vezes piora a “cólica”, além dos efeitos no sistema nervoso), ou, com medo destes, aos remédios “naturais”.
Estes são muito usados justamente pelo apelo de que algo natural não faça mal algum.
Muitos dos chás usados normalmente para tratar problemas de saúde têm mais de cem componentes potencialmente ativos. Muitos deles interferem com a absorção de nutrientes ou medicamentos, além de a maioria destes componentes não terem seus efeitos no organismo conhecidos (mas, certamente, alguns componentes são tóxicos, cancerígenos ou “indutores”de manifestações alérgicas).
Além disto, assim como ocorrem com os medicamentos, volta e meia lemos algo a respeito dos problemas deste tipo de “remédio”, como o publicado no site do WebMD: sete bebês intoxicados pelo chá de anis estrelada (Ilicium), com sintomas como vômitos, movimentos anormais e convulsões.
Como diz um amigo meu, raio também é “natural”, e mata!

14 de dezembro de 2018

"A Segurada"


Quem aparece aqui com frequência não aguenta mais ler sobre o assunto "cólica" (o "problema" - somente para os pais, na verdade - do que chamo de "bebê bocudo", aquele bebê que algumas vezes faz os pais desejarem voltar ao passado, significando antes da fecundação desse serzinho querido!).
Mais postagens certamente virão...
Mas hoje quero recomendar um vídeo singelo do Youtube, sobre um pediatra com mais de 30 anos de carreira (como o que vos escreve, apenas que menos em forma do que eu - brincadeira!). Nele (está em inglês sem legendas, mas nem precisa delas), esse pediatra da Califórnia orienta sobre um método chamado por ele de "the hold" ("a segurada"), método que, segundo ele, faz a maioria dos bebês chorões pararem de chorar, quase imediatamente.


Nada de novo. Fazemos isso sempre. Meu " método" (menos regrado que o do colega, possivelmente porque não sou americano!) é por mim apelidado de "asa delta" (porque imagino que a sensação para a criatura segurada seja algo semelhante à um vôo, apenas que mais seguro). 
Tudo vale para mostrar aos pais que não existe a tão propalada "dor" no bebê que chora (antiga e comum noção que sempre faz a alegria da indústria farmacêutica, que hoje inventa "remédios" além de tudo caros na tentativa de se obter um sossego).
Braços à obra! Segurar essa moçada de uma maneira surpreendente pra eles, e que provavelmente os faz esquecerem dos motivos pelos quais estavam chorando.
Nada mais primitivo. Nada mais primata. 

6 de outubro de 2015

Cólica: Volume Um




Alguns bebês choram.
Outros não: outros são bocas circundadas por bebês.
Há bebês que choram. Outros deixam visita constrangida.
Tem bebê que você vê o pai na primeira hora dizer: "Que lindo, chorando!", ele também, não contendo as lágrimas. Esse mesmo pai, horas depois, olhando pros lados: "Mas agora vamos parando, né?".
Há bocudos que ganham alta da maternidade no primeiro dia "se a mãe prometer que não conta pra ninguém".
Outros têm sua data de nascimento falseada para o dia anterior, e enfermeira ajudando a fazer as malas. 
Há gente que medica. Outros põem tampão no ouvido. Vizinhos obrigados a mudar pro quarto de empregada. Reuniões de condomínio, revestimento acústico, música 24 horas ligada, pra abafar "o boca".
Chupeta, melzinho, chá de tudo quanto é erva, da doce à tremendamente amarga.
Tem pai que com três dias se separa.
Tem briga com a sogra, com a tia, com o jornaleiro.
Até que...
Até que, um dia, o "boca" acorda sardonicamente sorrindo (com um dentinho quase apontando).
E tudo isso para...
E aí, "viveram todos felizes para sempre".

23 de outubro de 2012

Droga Hollywoodiana


 
Temos observado nos últimos tempos um recrudescimento no uso da escopolamina (Buscopan®) na infância.
A escopolamina tem o seu espaço como analgésico para dores tipo cólica, principalmente em crianças maiores (pelo menor risco) e em dores mais importantes e de curta duração.
Minha implicância é com o uso em bebês, e em especial nas famosas “cólicas” dos primeiros meses.
Totalmente contra-indicado, seu único efeito farmacológico se deve basicamente ao efeito sedativo secundário, que faz com que algumas crianças efetivamente “durmam melhor” (chorem menos). É a velha história de medicalizar incômodos.
A escopolamina, lembro sempre, é tão poderosa nos seus efeitos no sistema nervoso central que já foi usada como “droga da verdade”: seus efeitos alucinógenos – em doses mais altas – fazia inimigos confessarem segredos de estado em interrogatórios, fato também retratado em filmes como Os Canhões de Navarone, O Último dos Valentões, A Casa da Rua 92, Desafio das Águias, e Blood Hunt.
Como se vê pela quantidade de filmes que participou, já poderia ser uma droga candidata ao Oscar!
 

8 de setembro de 2009

Psicólico


Dia desses uma enfermeira velha de guerra – mais que eu – me interpelou no corredor da Maternidade em que eu trabalho:
-E aí, doutor, ainda continua com os mesmos conceitos em relação às cólicas?
Queria dizer: “Ainda resistente em achar que os recém-nascidos têm mesmo dor na barriguinha?”, claro.
Sim, porque já carrego alguma fama nestes mais de 20 anos, “aquele que não acredita...”.
Respondi:
-Cada vez mais convicto! (claro que não exatamente que “absolutamente nunca pode ter realmente dor”, mas a resposta ficaria muito extensa, e era preciso provar convicção, afinal de contas!).
E aí, exagerei:
-A cólica virou meu ganha-pão! Já quase comprei uma casa em Angra por causa dela. Acho até que já faturei mais com as cólicas do que a Bristol-Myers Squibb.*
Um pouco de exagero, só. Nunca fui a Angra (nem sei se ainda vale a pena comprar casa lá).

* ex-fabricante do “extinto” Espasmo-Luftal, atualmente com o mesmo nome no EMS – e copiado por vários similares. O que a falta de uma boa conversa não faz de lucro pra indústria?

20 de março de 2012

Nas Cabeças

Mães de crianças com cólicas têm 2,5 vezes mais probabilidade de terem enxaqueca.
E o que tem a ver o fiofó com as calças?
É difícil de afirmar, mas a sugestão é a seguinte:
Enxaqueca exibe forte tendência familiar.
Enxaqueca vem como “do nada” incomodar seus portadores por algumas horas ou dias, e depois costuma melhorar.
Enxaquecosos são muito susceptíveis ao ambiente: barulhos, luminosidades excessivas, alterações importantes na rotina.
A idéia, então, é de que as crises intensas de choro de algumas crianças (justamente aquelas mais difíceis de se suportar nos primeiros meses) possa fazer parte do espectro do que tem se chamado “crises periódicas da infância” – terminando por desembocar nas enxaquecas da idade adulta (ou mesmo já na infância).
Acho bem plausível (já que – como estamos cansados de argumentar – a história da cólica é muito mal explicada por qualquer tipo de “dor na barriguinha” ou coisa do tipo).

A propósito, aquele remedinho sem vergonha do laboratório Bristol, o Luftal (eu prefiro “Lu, a fatal”!) cria agora em comerciais para a televisão outra indicação preciosa para sua inocuidade: os borborigmos!
Borborigmos, para quem não sabe, são aqueles barulhos desagradáveis que avisam que nossos intestinos estão funcionando – na hora em que não deveriam avisar!
Claro que não adianta.
Mas aqui vão os truques para o casal de namorados:
1) coma pouco
2) evite alimentos que fermentam demais, como maçãs ou feijão
3) ponha o som no volume “borborigmo” (na maioria é acima de 3 risquinhos)
E, se tudo isso falhar, ponha a culpa no (a) parceiro (a).

3 de junho de 2016

Esculhambose


Sempre se usou certos diagnósticos médicos em vão. 
Mas talvez não tanto quanto agora. Sei lá.
A culpa só pode ser da universalização da informação e da internet, onde cada um pode ser seu próprio médico. Só que não. 
Houve uma época (dizem!) em que boa parte da humanidade era esquizofrênica. Aquela coisa do "Que tanto você fala disso,tá esquizofrênico, é?". 
Outra que eu já me lembro era o do raquítico. Eu, por exemplo, magro como um louva-Deus durante toda minha infância, era um "raquítico". Nada a ver com a vitamina D. Mas era!
A tosse comprida, enquanto existiu como doença frequente na infância, frequentava a boca de todas as vovós. Ninguém podia tossir, que as velhinhas já emcompridavam a tosse pra caberem nos seus diagnósticos.
Agora, falando de hoje, deste exato momento, milhares de crianças (e mesmo adultos) estão recebendo seus diagnósticos de intolerantes à lactose. Basta um punzinho meio atravessado e cria-se um drama.
Hiperatividade: crianças que não chegam quietas e saem paralisadas são hiperativas. Diagnóstico principalmente da alçada de professores, do jardim à universidade.
Há 27 anos não vejo um sarampo. Mas mensalmente atendo crianças que devem estar com ele. Interessante como o estigma demora a se resolver na sociedade.
Pneumonia, infecção no intestino, cólica, bipolaridade, rinite, fimose. São outros dos vários diagnósticos auto-dados. E com certificado googliano de qualidade. Difíceis de confutar. 
Um antigo professor costumava dar um diagnóstico, esculhambose - ou algo parecido - ao seus pacientes saudáveis, ansiosos por possuírem "alguma coisa". A internet o teria desmascarado...



30 de junho de 2017

10 Verdades


1) Para se coibir o uso indiscriminado de antibióticos, tentaram a retenção da receita. Não adiantou. Próximo passo? A retenção de médicos!
2) Verruga é contagioso? Claro que é. Se bem que conheço um cara que viu de perto a Madona e não ficou mais velho... (ver ruga! rá rá!)
3) Quem tem dor de cabeça precisa de óculos? Só pra enxergar o preço do analgésico.
4) Natação emagrece? Se você parar de comer enquanto está dentro da piscina, sim!
5) Hoje em dia tem tanto aluno hiperativo que está mais fácil dar um "agitolol" pros calminhos entrarem no ritmo da turma
6) Existe uma conta pra prever a altura do bebê? Existe, mas ela é tão complicada, que quando você resolver, seu bebê terá 53 anos de idade
7) Banho de balde acalma o bebê (assim como um banho de loja acalma sua mamãe)
8) Cocô verde é sinal de cólica no recém-nascido? Não, mas o cocô amarelo  é sinal de "atenção", e o vermelho é sinal de "pare"
9) Quando é hora de tirar a chupeta? Na ordem unida (para os homens), e se não combinar com o véu da noiva (para as mulheres). 


10) Hoje em dia, os 70 anos são os "novos 50", e os 2 aninhos são os "novos recém-nascidos"

3 de fevereiro de 2012

Rasgação

O que há de tão engraçado numa rasgada de papel?
Pergunte ao bebezinho do comercial do Itaú.
Tudo num bebê é novo.
E tudo pode ser muito engraçado. Ou muito triste. Ou muito assustador.
Tudo costuma ser muito.
Por isso se diz que bebês são “meio bipolares” (os bebês apareceram muito antes do conceito de bipolaridade, graças a Deus): num momento estão com sorriso aberto, no momento seguinte estão chorando, pelos motivos mais banais, como uma rasgação de papel.
E quanto mais nova a figurinha, mais instabilidade emocional, menos freio no riso, menos controle do choro, mais difícil saber o que os aflige ou contenta.
Espere...
Estou ouvindo aquela palavrinha... Cólica?
Da próxima vez que seu bebê estiver numa crise de choro, experimente rasgar um extrato de conta bancária para ele. Talvez pare de chorar.
Só não diga que ele está num comercial do Itaú. (Eu choraria!)

23 de setembro de 2011

Três Remédios "Estranhos" - Transpulmin Supositórios, Kaopectate, Piptalake P

De vez em quando a indústria farmacêutica tem umas idéias... de jerico.
Criam alguns remédios baseados em fatos no mínimo contraditórios.
De cabeça agora me vem três (apenas um deles ainda mais ou menos badalado):
1) Piptalake p: ainda comercializado em alguns países (não mais no Brasil) é uma absurda combinação de um antiespasmódico (remédio para dores tipo cólica, não sem boa chance de efeitos colaterais) com o fenobarbital (remédio para convulsões, com propriedades sedativas). Servia para quê? Para as inocentes cólicas dos recém-nascidos! Ou seja, dopava-se o pobre bebê para que ele não chorasse (não incomodasse, em suma)!
2) Kaopectate: uma combinação de ingredientes usado para “tratar” diarréias, mas que não atua na causa. Atua apenas no aspecto das fezes. Por isso, com o tempo foi sendo apelidado de “cosmético de fezes”. Curioso isso: você continua doente, mas não precisa ficar vendo o feio resultado que sai de você...
3) Transpulmin supositório: enquanto não o proíbem por ser “relativamente” inócuo, ele vai fazendo a festa do laboratório farmacêutico que se prevalece da ignorância dos pacientes em matéria de fisiopatologia. Como pode um remédio que você utiliza “por baixo” atingir especificamente o pulmão para “puxar” o catarro de dentro dele? Com a palavra, a alta tecnologia da Achè, que transforma a cânfora, o mentol, o eucaliptol e o guaiacal em moléculas “inteligentes”!

2 de outubro de 2009

Dos Pés à Cabeça


Asma, angina, acne.
Bronquite, bruxismo, binge eating.
Cólica, cefaléia, Crohn.
Doritos, durex, detergente... (Ôpa! Aí é lista de supermercado!)

Mas nós podemos desfilar o alfabeto inteiro com doenças ou problemas de saúde nos quais os estados emocionais (“para o bem ou para o mal” – não esqueçamos que emoções positivas também desequilibram o prato da balança) influenciam:

Enxaqueca, eczema, endometriose.
Febre, fadiga, fibromialgia.
Gastrite, gota, Gilles de la Tourette...

E vou parar por aqui, senão vão dizer que estou forçando.

(parece aquela piadinha boba de infância:
“Malas, malinhas e maletas,
Bolsas, bolsinhas e... sandálias Havaianas!”)

1 de março de 2011

Sorriso, Sim. Choro, Não!


Um bebezinho de 15 dias sorri, dormindo.
- É reflexo – explica o pediatra. – Ele já fazia isso dentro do útero materno.
- É mesmo! – exclama a mãe. - Ele sorriu no último ultra-som que nós fizemos.
A vovó, também, abre um sorriso de satisfação e felicidade.

Segue a consulta.

Passado alguns instantes, do nada, o mesmo bebê começa a chorar. Um minuto depois, chora intensamente, recusando-se mesmo a mamar.
- É dor, tá vendo? – diz a mãe, desesperada.
- É cólica! – afirma a vovó-sabe-tudo.
- Não – tenta argumentar o médico – Faz parte do mesmo tipo de evento. Um choro também pode ser reflexo, e não ter nenhuma relação com dor. Como, aliás, costuma acontecer...
- É? – pergunta a mãe, descrente.
- Umpf! – esbafora a vovó, indignada.

3 de abril de 2006

Linha de Montagem


Os bebês, alguns meses antes de nascer, passam por alguns “testes de fábrica”.
Um dos mais interessantes é o teste dos circuitos cerebrais, em que o bebê contrai-se todo já no útero materno e ainda após alguns meses de nascido.
É o que as mães costumam chamar de “se espremer”.
O cérebro comanda: “testar mexida de perna esquerda”, “testar fechamento das mãos”, “testar contração do corpo todo simultaneamente” (com o passar de alguns meses de vida extra-uterina, a necessidade destes testes vai diminuindo, e a criança vai parando de “se espremer”).
E é claro que em algumas destas contrações há a liberação de gases, que são abundantes no intestino do recém-nascido, só esperando uma “forcinha” para serem liberados.
De novo:
Alguém aqui pensou em “cólica”?

25 de novembro de 2016

Esculhambose


Sempre se usou certos diagnósticos médicos em vão. 
Mas talvez não tanto quanto agora. Sei lá.
A culpa só pode ser da universalização da informação e da internet, onde cada um pode ser seu próprio médico. Só que não. 
Houve uma época (dizem!) em que boa parte da humanidade era esquisofrênica. Aquela coisa do "Que tanto você fala disso,tá esquisofrênico, é?". 
Outra que eu já me lembro era o do raquítico. Eu, por exemplo, magro como um louva-Deus durante toda minha infância, era um "raquítico". Nada a ver com a vitamina D. Mas era!
A tosse comprida, enquanto existiu como doença frequente na infância, frequentava a boca de todas as vovós. Ninguém podia tossir, que as velhinhas já emcompridavam a tosse pra caberem nos seus diagnósticos.
Agora, falando de hoje, deste exato momento, milhares de crianças (e mesmo adultos) estão recebendo seus diagnósticos de intolerantes à lactose. Basta um punzinho meio atravessado e cria-se um drama.
Hiperatividade: crianças que não chegam quietas e saem paralisadas são hiperativas. Diagnóstico principalmente da alçada de professores, do jardim à universidade.
Há 27 anos não vejo um sarampo. Mas mensalmente atendo crianças que devem estar com ele. Interessante como o estigma demora a se resolver na sociedade.
Pneumonia, infecção no intestino, cólica, bipolaridade, rinite, fimose. São outros dos vários diagnósticos auto-dados. E com certificado googliano de qualidade. Difíceis de confutar. 
Um antigo professor costumava dar um diagnóstico, esculhambose - ou algo parecido - ao seus pacientes saudáveis, ansiosos por possuírem "alguma coisa". A internet o teria desmascarado...