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21 de julho de 2017

Inócuos, Pelo Medo


Os pais deixam de usar uma medicação ainda muito útil no tratamento dos problemas respiratórios pelo medo dos efeitos colaterais. A medicação, você já deve estar adivinhando, é o broncodilatador (fenoterol, nome comercial Berotec, ou o salbutamol, nome comercial Aerolin). 
E aí, fazem tratamentos inócuos, pelo medo. Desconsiderando o fato de que "quando não se morre pelo remédio, pode se morrer pela doença". Claro que isso é um mote infeliz (sei lá se existe, acho que criei agora!), querendo dizer que às vezes temos que arriscar algum efeito colateral para buscar a melhora. Isso é muito verdade no caso da asma mais severa, por exemplo.
O "truque" ao se fazer a nebulização* com esse tipo de remédio é o seguinte:
Morre de medo? Injustificado, mas tudo bem, se foi prescrito, por exemplo, 4 gotas em 2 ml de soro fisiológico, faz na primeira vez 1 gota (desde que o caso não seja muito grave!) nos mesmos 2 ml. Foi tudo bem? Aumenta para 2 gotas (sempre no mesmo volume de soro). Tudo bem ainda? Três, agora. Até chegar às quatro prescritas. Ah, mas aí deu agitação, ou aumento dos batimentos cardíacos... Volta para as três gotas, e aí fica daí em diante!
Simples! Não tem como dar errado.
O que não pode é ficar medicando falta de ar (ou secreção brônquica) com soro fisiológico, só.



*Só lembrando que hoje em dia, na maioria dos casos (mesmo em bebês), é mais interessante e prático fazer medicação inalada com os aerossóis ("bombinhas") do que com os "antigos" inaladores (o duro é - de novo - convencer certas famílias de que "aquilo não é perigoso"!)

18 de julho de 2017

"Meu Filho Passou Mal" (Uma História Real)


Veja essa história "quase real" que acontece de vez em quando:

"Doutor, o Paulinho passou mal nessa semana..."
"O que aconteceu?"
"Ele estava no ônibus da escola, e quando desceu, caiu. Foi achado caído pela avó."
"Desmaiou?"
"Não sei."
"Como, não sabe? Ele perdeu consciência? Não respondia às pessoas?".
"Não sei. Foi a vó que viu."
"Ela não contou?".
"Se ele perdeu consciência? Não...".
"Seria bem importante perguntar isso pra ela. E você, Paulinho, o que é que você sentiu? Conta pra mim."
"Não sei."
"Não sabe? Mas você não "passou mal"? O que foi que você sentiu nessa hora que se sentiu mal?".
"Não sei."
"Foi tontura? Dor de cabeça? Dor no peito?"
"Dor de cabeça..."
"Só?"
"Só!"
"E daí a dor de cabeça fez você cair?"
"Não sei".
"Não sabe? Mas, Paulinho, a gente quando tem dor de cabeça não cai! Você caiu por causa da dor de cabeça?".
"Não sei. Acho que foi."
"Mas você lembra como caiu?".
"Não."
"E você lembra se tinha alguém por perto?".
"Tinha."
"E eles ajudaram você?"
"Não. Só perguntaram por que é que eu tinha caído..."
"E você disse o que?.."
"Não lembro".
"Não lembra por que tinha caído, ou não lembra o que disse pra eles?"
"Por que tinha caído..."
"E quando a vó chegou, você estava bom, já?"
"Não".
"Não? O que é que você estava sentindo?"
"Eu tava passando mal!"
...

Percebe a encrenca? Esse tipo de história, por vezes quase interminável, com informações-chave ausentes ou desencontradas, ao chegar ao médico, geram mais do que esclarecimentos, confusão. Se a criança for a 10 médicos, vai investigar com exames que vão do eletroencefalograma ao raio X de seios da face, vai ser encaminhada do cardiologista ao psicólogo. Se se insiste no interrogatório, gera ansiedade nos pais, mas principalmente na própria criança, que a partir de um certo momento começa a responder qualquer coisa, pra se livrar do incômodo de ser interrogada! 
Imagina tudo isso com consulta rápida, então!
É o tipo do caso em que se tem quase que esperar por uma próxima vez para se criar qualquer proposta de investigação ou tratamento. Ou, principalmente, torcer pra que nada mais ocorra.



(E o que é pior: às vezes é uma historinha só pra conseguir um atestado!)

14 de julho de 2017

Já Pra Cama!


Pais perguntam tudo pra gente, pediatras.
E às vezes perguntam coisas para as quais não temos resposta, claro.
Uma das perguntas que me dão mais soninho é:
"Onde o bebê deve dormir?"
Responder "na cama" não satisfaz esses pais tão insatisfeitos. Querem mais. No nosso quarto? No dele? Pode ser com a gente? E etc.
Inicialmente devemos lembrar que a sociedade muda sempre. Se estamos lidando com um casal "convencional" (pai, mãe, dormindo no mesmo quarto), a orientação pode ser uma bem diferente da orientação para a mãe solteira, para o casal com (ainda) vários filhos, para uma criança para a qual um quarto "dela" é um luxo impensável, etc. 
Além disso, desaconselharia totalmente uma coabitação de quarto com pai ou mãe fumante (independente do fato de fumarem fora desse quarto, pela eliminação de poluentes no ar expirado desses pais). 
A Academia Americana de Pediatria desaconselha firmemente o compartilhamento da cama do bebê com os seus pais (pelo potencial perigo de os pais sufocarem seus filhos acidentalmente), ainda que esse evento seja muito raro. No Brasil essa prática ainda é muito adotada (até porque somos raça muito mais aconchegante do que a turma de origem anglo-saxônica). 
Já a "firmeza" de manter a criança no seu quarto desde o momento que nasce é para poucos (e, naturalmente, firmes!). Costuma ser bom, mas é difícil que possa ser algum dia encarada como uma norma.
Complexo, mais do que pode parecer.
"Na cama" continua sendo, talvez, a melhor resposta.

11 de julho de 2017

Assombrados


Você repara no filho dos outros como nos seus?
Percebe, então, esse olhar característico da criança de pouco menos de um ano de idade para tudo que a cerca?
É (acho) fascinante observar a observadora: ela quase engole o mundo com os olhos*. É uma avidez visual sem comparação com qualquer outra idade.
(Diria somente comparável com a nossa descoberta de alguma maravilha natural ou feita pelo homem, na primeira vez que se viu - mesmo velho - ou com a visão, por exemplo, de uma mulher nua pelo adolescente - também é uma visão "gulosa", mas reforçada por outras gulas, não a visão despretensiosa, apaixonada, de sede de conhecimento, de entendimento de como as coisas funcionam nesse mundico).
E aí, você que está observando a observadora, percebe subitamente que seus olhares se entrecruzam. Susto! Você, porque flagrando aqueles momentos de êxtase visual. Dela, porque achou mais uma "coisa" muito interessante (ou exótica, ou monstruosa, ou...), e que, além de tudo faz contato!
Djã!...

*É justamente esse olhar que caracteriza a figurinha-símbolo do nosso caro blog!

7 de julho de 2017

Does Love Heal?


O Amor Cura?
(pus assim, em inglês, para dar cara de filme drama hollywoodiano...)
Todo mundo já está meio careca de saber que sim, o amor pode ajudar a curar. Ou se não cura exatamente (pois não há cura para tudo), pelo menos ameniza os sofrimentos de quem adoece. Também algo bem sabido.
Então pra que repetir isso?
Pra lembrar que a dose de cada ingrediente na cura de pequenos males, como os que afligem crianças com uma frequência grande, pode ser "mais amor e menos agressão". Funciona, e funciona muito bem.
Me explico: 
Uma determinada criança com uma pneumonia leve pode e deve se beneficiar mais com um tratamento antibiótico caseiro (desde que a coisinha tome o remédio, bem entendido!) e com o conforto e o carinho do lar e dos seus parentes (amor, em suma) do que com uma internação, onde será agredida desde a entrada (com a perda das referências domiciliares, como mínimo fator de agressão). Isso quando não tomará injeções, terá soro na veia, e etc. (só lembrando que falamos de casos leves, onde a troca pode ser feita sem grandes riscos de complicação). 


Por outro lado, em ambientes conturbados, problemáticos, onde rola pouco amor, a própria internação pode ser um fator reversor, onde se dará mais carinho e menos agressões (agressões muitas delas involuntárias, como a falta do que comer ou onde reposar adequadamente, como no caso de algumas famílias muito pobres). Víamos muito isso no passado. Tem melhorado.