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6 de dezembro de 2016

I & I


Ineditismo e intensidade.
Com frequência os pais de crianças com sintomas de "bronquite" (ou asma) perguntam se devem fazer um raio X no momento do aparecimento dos sintomas.
Na maioria das vezes é desnecessário. Se não há dúvida diagnóstica. Se os sintomas são inequívocos. 
Há duas excessões, no entanto.
Se a criança nunca teve sintomas de "bronquite" antes - especialmente se é uma criança um pouco mais velha (ineditismo). Porque os sintomas de outros problemas (principalmente uma aspiração de corpo estranho) podem simular uma "crise banal de bronquite".
Ou uma crise de intensidade desproporcional ao que já teve antes (intensidade). Até porque dá alguma tranquilidade "ver um Rx normal" nesses casos (ainda que uma crise intensa possa alterar o raio X a ponto de simular outras doenças, como a pneumonia, por exemplo).
No restante dos casos (a maioria, portanto), nada de raio X.

2 de dezembro de 2016

Nunca "A Favor"


Não sou ninguém pra falar de aborto. Até porque minha lida é com os resultados de quem não abortou (as crianças, os anti-abortos por definição).
Parece, no entanto, que nós vamos caminhando para a "institucionalização" do aborto também. 
Claro que as coisas vão ainda demorar muito para acontecer da forma certa (forma certa lá fora é como tem que ser, diferente da nossa forma certa que é do jeito que dá e olha lá). Vão haver clínicas especializadas servindo ao SUS, vão ser atendidas na maternidade como nossos abortos "espontâneos" costumam ser, vamos ter uma especialidade obstétrica à parte? Sabe-se lá! Provavelmente uma mistura incompleta de tudo isso, como tudo aquilo mais é.
Como alguém que pensa mais do que crê também acho que em muita coisa pode melhorar a situação atual de mulheres que arriscam (e frequentemente perdem) suas vidas. Concordo com a definição de hipocrisia os preceitos religiosos sempre (e muitas vezes raivosamente) alegados.
Uma coisa, entretanto, me angustia:
Somos o país do otimismo sem motivo, do deixar pra depois, do não-vai-acontecer. Estamos num momento (que pode ser longo) muito vulnerável em termos de políticas públicas, de educação, de condição social e econômica, e etc.
E nessas situações, um aborto "anunciado, anistiado e facilitado" pode mesmo se transformar numa "pilulona do dia seguinte", do estímulo à irresponsabilidade (ou ao desestímulo à responsabilidade, como queiram). Temos sido assim em quase tudo: remediando mal o que poderíamos tranquilamente evitar. 

Poderemos (e até mesmo devemos) tentar. Mas ainda devemos refletir sobre.

29 de novembro de 2016

A Grades


Passamos em pouco tempo do casamento arranjado para o casamento com (suposto) amor, para o casamento com data de validade (hoje, raramente "eterno").
Nossos pais, avós e bisavós (se você que está aqui a ler não é um adolescente) foram, então, a turma que vivenciou o "casamento por amor eterno", aquele pessoal que escolheu um parceiro com quem - a princípio - iria viver até que um dos dois batesse as botas. Pouco problema para o sistema judiciário.
Mas agora filhos vêm quase como um efeito colateral de relações findáveis, em que quando o amor acaba (se é que realmente chegou a existir), o que sobra é a divisão de responsabilidades entre pais muitas vezes rancorosos, com as cabeças (meio que literalmente, desculpa a grosseria) já mergulhadas em novos relacionamentos.
O resultado disso? Infindáveis processos, audiências conciliatórias, mandados de prisão, ameaças, e etc. Haja justiça pra essa gente toda!
Ninguém que não seja muito calculista manda um "acho que estou te amando" adicionado a uma declaração de renda. São raros pais que na maternidade começam a fazer conta (de divisão, de subtração) antevendo a separação. Mas a se bem pensar, não seria nada tão estranho.

Estranho mesmo é ver um pai ignorante e pobre atrás das grades como solução final para algo que um dia foi inocentemente chamado de amor.

25 de novembro de 2016

Esculhambose


Sempre se usou certos diagnósticos médicos em vão
Mas talvez não tanto quanto agora. Sei lá.
A culpa só pode ser da universalização da informação e da internet, onde cada um pode ser seu próprio médico. Só que não. 
Houve uma época (dizem!) em que boa parte da humanidade era esquisofrênica. Aquela coisa do "Que tanto você fala disso,tá esquisofrênico, é?". 
Outra que eu já me lembro era o do raquítico. Eu, por exemplo, magro como um louva-Deus durante toda minha infância, era um "raquítico". Nada a ver com a vitamina D. Mas era!
A tosse comprida, enquanto existiu como doença frequente na infância, frequentava a boca de todas as vovós. Ninguém podia tossir, que as velhinhas já emcompridavam a tosse pra caberem nos seus diagnósticos.
Agora, falando de hoje, deste exato momento, milhares de crianças (e mesmo adultos) estão recebendo seus diagnósticos de intolerantes à lactose. Basta um punzinho meio atravessado e cria-se um drama.
Hiperatividade: crianças que não chegam quietas e saem paralisadas são hiperativas. Diagnóstico principalmente da alçada de professores, do jardim à universidade.
Há 27 anos não vejo um sarampo. Mas mensalmente atendo crianças que devem estar com ele. Interessante como o estigma demora a se resolver na sociedade.
Pneumonia, infecção no intestino, cólica, bipolaridade, rinite, fimose. São outros dos vários diagnósticos auto-dados. E com certificado googliano de qualidade. Difíceis de confutar. 
Um antigo professor costumava dar um diagnóstico, esculhambose - ou algo parecido - ao seus pacientes saudáveis, ansiosos por possuírem "alguma coisa". A internet o teria desmascarado...

22 de novembro de 2016

Um Por Cento de Nada



Uma pesquisa tem dado o que falar este ano.
Pesquisadores fizeram uma espécie de "Enem" (quando me refiro a Enem quero dizer aquele original, que tinha por função avaliar escolas) de médicos recém-formados na cidade de Baltimore (EUA) para que eles demonstrassem o seu conhecimento quanto a real capacidade de tratar certas doenças. Curiosamente, os médicos falharam (e falharam muito) em superestimar suas capacidades, principalmente no que diz respeito aos exames diagnósticos (ex.: mamografia no caso do câncer de mama) e medicamentos (como, por exemplo, os tratamentos medicamentos disponíveis para tratar a osteoporose).
Em alguns casos, a discrepância entre a efetividade dos medicamentos real e a "acreditada" chegou a ser quase de 70 vezes!
Muita ignorância?
Isso em boa parte se explica pela maneira como se ensina. Principalmente como se ensina em sociedades voltadas para o consumo e o imediatismo, como a sociedade americana (e, por consequência, a nossa própria, copiadora do modelo americano). 
Mais ou menos assim:
Doença X, o que se propõe como medicamento?
Isso, isso e aquilo.
Algumas vezes param por aí.
Mas algumas vezes, vai-se além:
Efetivos?
Pouco. O medicamento Y é o mais efetivo.
Conclusão?
Y neles (os pacientes)!
Onde quase nunca se chega é no analisar profundamente os riscos x benefícios, os interesses da indústria, o interesse do professor ou da própria faculdade no promover o tratamento, no abordar o problema com sinceridade com o paciente (muitas vezes no sentido de "abrir o jogo" expondo a inexistência de terapias efetivas), etc.
Então, pela "comodidade" (do ensino, do médico - que sente-se na obrigação de oferecer algo - ou dos pacientes e familiares, que precisam de tábuas terapêuticas onde se agarrar), pela pressão da indústria farmacêutica, ou mesmo pela desonestidade envolvida no processo, o tal medicamento Y vai tendo seu uso consagrado. Mesmo que essa "maior efetividade" chegue a incríveis 1%!