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17 de abril de 2015

Geração Gadget


Já falei aqui que os pais têm achado um prodígio seus filhos lidarem com os mil gadgets - palavra moderninha para smartphones (!), tablets (!), notebooks (onde foi parar o português?) - que nos inventam a cada ano.
E se nos inventam é (supostamente) para nos facilitar a vida! Tanto que o outro extremo (as vovós) também andam desenvoltas nos aparelhinhos. Nem óculos precisam!
Então:
Não vai ser por aí (quer dizer, não vai ser no saber lidar com coisas que todos mais ou menos sabem) que vão se preparar para os futuros desafios acadêmicos. Mais provavelmente o contrário.
Smarts e tablets têm milhares de coisinhas para competirem pela atenção da criança. Difícil ler, difícil manter a concentração numa só coisa (um dos grandes aprendizados da fase escolar, e, então, cada vez mais complicado), uma grande tentação - quase uma obrigatoriedade  - descobrirem "tudo o que essas maquininhas têm pra dar".
Bom por um lado, mas devastador por outro. Percebemos já algum tempo a incapacidade de boa parte dessa geração (que vai, sei lá, até os quarenta) de fazer um sujeito se encontrar com um advérbio, de entenderem uma história contada, de se interessarem por mais do que uma imagem.
Não dará futuro pra ninguém.


Nem mesmo pra Apple...

14 de abril de 2015

Divida-me Em Pedaços, Doutor!


O que torna a consulta do paciente adulto difícil é, na maioria das vezes, a sua multiplicidade. Por exemplo, um paciente de meia-idade, diabético, hipertenso, com uma infecção pulmonar. Não por bactéria. Por fungo.
Percebe a encrenca? São vários os fatores a interferir no resultado final.
Na criança as coisas costumam ser mais simples - ainda que hajam muitas "encrencadas" de tenra idade.
Mesmo nas crianças que têm pouca história, no entanto, o trabalhoso costuma ser o seu intorno.
Só para ilustrar, imagina uma criança que vem à consulta com dor abdominal diária cujo pai de meia-idade é diabético, hipertenso e está tendo uma infecção pulmonar. Não por bactéria. Por fungo (é isso mesmo, é o paciente acima descrito).
Até que ponto essas dores da criança têm relação com o ver um pai doente? Até que ponto sua mãe pode estar de certa forma negligenciando os cuidados com o filho para cuidar da saúde do marido? Até que ponto o filho "criou" (ou mais comumente, amplificou) a dor para chamar atenção? E se a causa for orgânica (doença), até que ponto seus problemas vão interferir na saúde e nos cuidados dirigidos ao pai?
Pouca coisa é assim tão fácil quanto às vezes pode parecer.
E esse é um obstáculo importante e pouco valorizado às melhorias na qualidade dos serviços de saúde. Não é em emergências abarrotadas que os novelos costumam se desenrolar. Precisa tempo, recurso, boa vontade, vocação, estudo, paciência, consciência política, educação.


Demora. Pelo andar da carruagem, vai demorar.

10 de abril de 2015

0 a 0




O futebol do Rio de Janeiro já foi um charme.
Tendo como palco o (então) maior estádio do mundo - o Maracanã - símbolo de uma das mais belas (se não a mais) cidades do mundo, pelo menos em termos da mistura natureza + arquitetura + carisma de seu povo, hoje substituído por uma homogênea "arena", tão bonita quanto sem identidade, abrigava craques dos quilates de Garrincha, Zico e Roberto Dinamite.
Diminuiu a qualidade do jogo, aumentou (e muito) o salário dos jogadores.
E pra fazer frente às despesas - mas também à grossa roubalheira dos dirigentes - recorre-se a tudo. Principalmente à propaganda, hoje manchando o espaço destinado à identificação dos times, nas suas caras camisetas. É por vezes difícil identificar para quem torcemos, no desfile de lojas, estabelecimentos bancários, estatais e produtos de todo tipo ali estampados.
Uma das novidades - e por isso incluí o assunto neste espaço - são os pretensos "medicamentos".
Sempre foram anunciados nos estádios. E de acordo com o nível socio-cultural da maioria dos espectadores, quase sempre se tratou de formulações inócuas para todos os tipos de males para os quais a medicina ou não tem a cura ou a tem, mas custa caro ou dá trabalho obtê-la, ou ainda, a melhora está mais na cabeça de quem toma o produto.
O engraçado - se não fosse um pouco trágico - é a atual abundância de formulações anti-"paumolescência" (como definiria a turma do extinto Casseta). Chazinhos, guaranás e pílulas com nomes "fortes", sonoros, com a grande promessa de uma maior virilidade (ou da sua recuperação).
Dependendo desse tipo de coisa, daqui pra frente vai ser um eterno 0 a 0. Tanto nos gramados quanto nas íntimas "arenas".

7 de abril de 2015

Raiva


Em meio a mais uma barulhenta madrugada de plantão na maternidade local, me ponho a pensar no sentimento que (aparentemente) move alguns bebês que acabaram de "cair no meio desse mundo que respira", segundo as palavras de Shakespeare: raiva!
Não há outro nome para a emoção percebida nessas pequenas criaturas esgoeladas, que aumentam a emissão dos decibéis com a suposta intenção de "causar" - o que na maioria das vezes conseguem, pois é dificílimo para a mamãe (principalmente para a mamãe novata) assistir a cena senão impassível (o que seria ideal como postura para "domar a pequena fera"), pelo menos com alguma compreensão da - digamos assim - normalidade do fato.
Esses bebês choram com toda a força des seus pequenos ventres. Fazem careta. Ficam vermelhos, algumas vezes roxos. E sempre vai ter alguém por perto para pensar "que devem ter alguma coisa"!
Têm. Pelo menos alguma "coisa" têm.
Uma personalidade forte. Tão forte quanto seus pulmões e laringes.

3 de abril de 2015

Ovo Gordo


Páscoa.
Dizem que, assim como a água, como o espaço pro lixo, como o combustível, também o chocolate está com os dias contados.
Já pensou, Páscoa sem chocolate?
Vai ser difícil acordar as crianças e dizer: "o coelhinho passou, podem procurar... seus biscoitos!".
Elas acostumam. É só criar uma nova tradição. Tradição é algo que algum dia foi criada, muitas vezes do nada - ou quase.
Também, essa chocolatarada toda que a moçada tem consumido não precisa mais de Páscoa. 
Basta perguntar pra alguém da faixa dos "...enta" se uma coisa (chocolate) não era associada à outra (Páscoa). No resto do ano era senão a moderação, a privação total.
A indústria, essa que não perde tempo, já se prepara para a seca. A maioria dos produtos consumidos como chocolate (principalmente pelas crianças) tem muito pouco cacau e muito açúcar e gordura nas mais diversas formas. Sem falar nas porcarias de brinquedos gestados pelos ovos, estilo Kinder. Joga-se o ovo gestante, descobre-se avidamente o brinquedo, joga-se o brinquedo, parte-se para um novo ovo gestante. Pra que cacau, minha gente?
Chocolate tradicional: alimento. Chocolate modernoso: açúcar.

Viva a Páscoa! (Viva a diabete?)