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16 de agosto de 2019

Figurinha



Não sou psicólogo, longe disso. Mas como pediatra tenho que tentar quebrar uns galhos como.
Uma das coisas que cresci ouvindo foi a história (história, será?) da "importância da figura paterna".
Acreditei nisso. Acreditei, e repassei de que isso era importante: da figura de um homem presente no lar, como alguém que a criança possa ter como contraponto à figura mais óbvia, inata, de toda hora, da mãe.
Parece meio óbvio, senão do ponto de vista psicológico (que, de novo, não é a minha praia), pelo menos do ponto de vista de equilíbrio de gênero, mesmo: um homem (meio assim, assim e assim) e uma mulher (desse outro jeito, desse outro jeito e desse outro jeito, mas muitas vezes tudo meio parecido, para a criança). 
Com o decorrer das últimas décadas, tudo isso tem sido muito questionado: importante exatamente pra quê, ô mané? 
Então. Exatamente pra quê? Sem querer abusar da desculpa (aquela, a de não ser meu quinhão), tenho realmente me questionado. Vamos ficar procurando esse pai, muitas vezes perdido (seja porque foi comprar cigarro e nunca mais voltou, seja porque fugiu já de cara das responsabilidades), muitas vezes tão mal acomodado na idealizada figura paterna que talvez fosse melhor que nem mesmo existisse, outras tantas vezes porque se preferiu que fosse incógnito, mesmo.
Quem não a tem (a figura) não cresce direito, não desenvolve, é problemático? Bom, não neguemos que pode ser um fator pra tudo isso, sim, mas não dependerá "só" disso. 

Como sempre foi. Só que agora de forma mais aguda, mais às claras, mais assumida.

9 de agosto de 2019

Feche Os Olhos?


Quanto você imagina que seja o "normal" de frequência de uso de antibióticos na criança?
Com a ressalva de que há diferenças genéticas, ambientais, sazonais, etc, podemos grosso modo dizer que em torno de... três vezes. Na infância inteira!
Se o seu filho tem usado muito mais antibiótico do que isso, ele provavelmente sofre de um dos "males do século": o abuso de antibióticos!
Crianças saudáveis (crianças saudáveis pressupõem ambiente familiar saudável, inclusive no aspecto psicológico parental) se manterão saudáveis com chances muito maiores se (na medida do possível) usarem quase nada de antibióticos. 
Mas - diria quase tragicamente - não é o que se vê nos atendimentos pediátricos rotineiros. Recorre-se a eles por quase todos os motivos imagináveis. Do catarro à febre inicial mais elevada, das dores no ouvido ou na garganta às tosses intensas. E vejo estupefato a ausência do questionamento a respeito, seja de pacientes, seja dos órgãos governamentais, seja da mídia (leiga, principalmente).
Sabemos onde isso vem dando. E alertamos. E esbravejamos. E argumentamos. 

Mas os resultados têm sido muito semelhantes aos desastres ambientais. Fechamos os olhos bem fechados. E abrimos a boca para a próxima dose.

2 de agosto de 2019

Dureza II


Na postagem anterior comentamos sobre a menor preocupação atual com a questão das necessidades diárias de cálcio.
Pra começar, quero dizer que nem o excesso de preocupação do passado precisava ser tanto, como essa despreocupação atual me parece um pouquinho excessiva.
De curto prazo nada vai nos acontecer se negligenciarmos um pouco o cálcio.
No longo prazo, no entanto, pode faltar perigosamente no que se costuma chamar (muito apropriadamente) de "poupança óssea".
Os ossos, além da natural necessidade da consistência dura, (quase) inquebrantável, são a absoluta reserva desse mineral, que na forma iônica (desmineralizada) serve à vários e importantíssimos propósitos orgânicos, da manutenção da musculatura às funções das células nervosas. E quando para essas coisas falta, "rouba-se na maior" do osso, que passa a ficar mais "pobre", fraco, "quebrantável", principalmente se essas situações de desequilíbrio se mantêm.
O fósforo é também importante, por se combinar com o cálcio na mineralização do osso, mas esse costuma sobrar na dieta, cuide-se dela ou não (a não ser nas pessoas com dieta muito restritiva, como no caso de anoréticos).
Um outro conhecimento é o de que níveis dietéticos de cálcio estão associados à menor incidência da obesidade (ainda que as explicações para isso sejam bem complexas).
Ah, então beleza, quanto mais, melhor, vou me "entupir" de cálcio!
Calma lá!
Um excesso orgânico de cálcio pode apresentar vários problemas, mas em alguns dos grandes perigos ainda reina a controvérsia.
Os rins, por exemplo, têm que fazer seu papel na eliminação dos excessos, e a formação de cálculos pode ser um desses riscos.
Há grande preocupação atualmente com a questão da associação da calcificação vascular com os riscos maiores (ou mesmo muito maiores!) das doenças do coração, ou mesmo dos derrames e tromboembolismos.

Em resumo: cuide. Controle um pouco. Confira sua dieta. Mas vá devagar.

26 de julho de 2019

Dureza


Quando era criança, costumava ouvir falar muito do cálcio, e muito pelo medo desmotivado (em relação ao cálcio) do raquitismo.
Ao iniciar como pediatra, ainda ouvia muita pergunta dos pais, apreensivos em relação aos níveis de cálcio, e com a possibilidade de faltar cálcio aos ossos dos seus filhos, e vi também muito colega suplementar cálcio, na forma medicamentosa.
Hoje essa "cálcio-mania" passou. Por vários motivos, acho. Dentre eles, o melhor conhecimento da relação com a vitamina D, com a matriz proteica óssea (sem proteína adequada não pode haver osso saudável, e era isso o que costumava faltar em muitas crianças do passado), mas principalmente porque outras "manias" ou "modas" vieram (alguém aí falou em lactose?), e pais pararam de ver "crianças raquíticas" (muitas delas apenas magras) pelas ruas.
Mas... quanto de cálcio é necessário para um organismo (ou mais especificamente um esqueleto) saudável, mesmo?
A verdade é que até hoje ninguém sabe ao certo.
Há recomendações nutricionais, e se você quer guardar um número de referência de cabeça, lembra do número 1000. Mil miligramas, como média diária de ingestão de cálcio. Claro que vários fatores vão influenciar, como idade, atividade, massa corpórea, função renal, e etc.
Mas para a maioria das pessoas, nem muito mais, nem muito menos.
Há riscos de se abusar do cálcio (dietético ou suplementar)?

Falaremos disso na próxima postagem...

19 de julho de 2019

E Pra Garganta, Nada?


Nunca vi pesquisa a respeito, mas aposto que se se perguntar para os habituais consumidores das famosas "pastilhinhas pra garganta", a grande maioria ignora do que são feitas.
Não são todas iguais. E a grande maioria serve para nada.
Veja a composição das pastilhas Vicky, por exemplo. Uma mistura de açúcar com baboseiras, que deixa um "agradável frescor" na garganta! Nada de medicamento, como tudo o que o laboratório Vicky fabrica (a Vicky é a marca campeã mundial da enganação de trouxa, biliardária e totalmente inútil, um verdadeiro milagre de marketing).
Benalet. Aí já é remédio. Horroroso, porque "anti-alérgico para chupar". Pra que? Qual o sentido de se ficar rolando um medicamento anti-alérgico pela garganta sem que se exatamente engula? Qual a base de se usar anti-alérgico para as comuníssimas dores de garganta, seja de que etiologia for?
E a minha mais odiada: Strepfen. Estou cansado de falar mal do ibuprofeno aqui. Mas é que ele merece (ainda que nem sempre o ibuprofeno seja ruim, o enorme problema é do mau uso - e do abuso - que se faz dele). 

Além de você ficar chupando uma "balinha anti-inflamatória" (aí, balinha por balinha prefira a da Vicky, mas preferencialmente esqueça as balinhas, você não é mais nenhuma criança!), esse nome capcioso (Strepfen), que induz você a pensar no "strep"tococo, o grande germe (bactéria) causador das (reais!) infecções de garganta - bem mais raras do que as inflamações de causa viral ou ambiental. Não é antibiótico (seria absurdo se fosse, na forma de pastilha), não é uma "simples balinha", é um remédio, sim, com propriedades anti-inflamatórias, que com essa aparência benigna estimula os consumidores a se entupir de uma medicação com possibilidade de reações adversas às vezes graves.