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3 de julho de 2015

Possibilidades


- Doutor, isso que o meu filho tem, pode ser uma pneumonia?
- Pode. Mas pode ser só uma traqueobronquite. 
- E uma infecção no ouvido, pode?
- Pode.
- Mas é?
- Acho que não. Mas poder, pode.
- Infecção na garganta só, não?
- Pode, claro que pode!
- E então?
- Essencialmente, tudo sempre pode...
- Doutor, como assim? O senhor tá tirando uma com a minha cara?
- Não! Mas poderia!
- Olha aqui, só vim aqui pro senhor me dizer o que é que meu filho tem de verdade, e o senhor fica com essa história de pode isso, pode aquilo?
- Não sou eu, minha senhora, que estou afirmando que isso pode ou aquilo outro pode, você é que está me perguntando. Como eu ainda não tenho certeza sobre o que o seu filho tem, tenho que (com a minha consciência) responder à senhora... pode! Agora, se a senhora quer que eu minta, ou invente...
- Não quero nada, quero só que o senhor me diga...
- Sim, já sei. Ocorre que diagnósticos são feitos baseados em história clínica, em exame físico, em raciocínio clínico, em evolução do problema com o passar de algum tempo. São baseados até em intuição, na experiência do médico, e nem sempre vem assim de cara, ao olhar simplesmente para o doente. Agora, para começar, se a senhora puder me responder a algumas perguntas...

E tem o inverso:

O paciente que chega com quase nada de sintomas, e o médico já vai dizendo:
- Olha, isso pode ser uma apendicite. Ou então uma infecção na bexiga. Ou até uma pneumonia! Ou, quem sabe mesmo um...
É o caso de se dizer:
- Doutor, o senhor pode pelo menos me examinar?

Como dizia aquele senhorzinho meio afeminado:
- Pode??

30 de junho de 2015

Um Problema Que Só Creche


Não há nenhuma medida mais efetiva para diminuir a incidência das infecções comuns das crianças pequenas do que... tirá-las da creche!
Aquelas escolinhas para todos os tipos de vírus comuns da infância não dão folga: os bebês curam de um, outro aparece no lugar - uns com mais "estragos", outros com menos, mas que dão aquela impressão desagradável e preocupante de que a criança "está sempre doente".
O busílis (problema) é que hoje em dia sugerir uma folga ou umas férias da creche equivale a pedir pra Dilma largar da Presidência: só um motivo muito forte (no caso da criança, da Dilma nem assim)! Uma ou duas faltinhas, já se ameaça que "perderão a vaga" (Por que? Porque aprendem equação de segundo grau? Não, porque não há creche suficiente pra todos, portanto cuide da sua vaga!).
O outro lado da história é que professores torcem o nariz quando as crianças vêm com um espirro, uma tosse, uma coriza a mais do que o combinado: devem ficar em casa (ou em qualquer outro lugar, menos aqui!). Sintomas esses que foram "adquiridos" ...justamente lá!
O que fazer? Correr pra onde? 
Uma opção é pro pediatra (Pediatra? Onde?) pra pedir atestado. Pro filho, vá lá, por prazo curto. Mas... e pra mãe (se as empresas não aceitam)?
Quem fica, então, com a criancinha? 


Avós: corram!

26 de junho de 2015

O Que Os Olhos Não Vêem (II)


Médico não é padre, e mesmo que fosse, seus pacientes dificilmente contariam todos os seus pecados a ele - como, de resto, dificilmente contam ao próprio padre!
E não sem razão isso acontece: lembro de alguns colegas que fazem cara de patrão do Dino da Silva Sauro (lembram?) quando seus pacientes confessam alguma "falha de conduta" em relação à sua saúde.
Na questão dos medicamentos, por exemplo:
Há aquelas medicações que o paciente diz para o médico que toma, mas não toma. Por vários motivos: preço, medo dos efeitos colaterais, por achar que não precisa realmente, preguiça, descrença, incapacidade pela apresentação (cápsula, injetável, etc.), desconfiança do diagnóstico, etc.
Há também aqueles remédios (na maioria falsos remédios) que o paciente toma, mas que não diz que toma. Igualmente por vários motivos: medo da "bronca" do médico, esquecimento, por achar a informação irrelevante, pela própria opção em relação ao medicamento prescrito, etc.
O segundo caso me parece menos frequente. E no caso da Pediatria, um "remédio" me vem logo à mente como principal exemplo (o dos "esquecidos"):
O tal do Vick Vaporub. Uma meleca fedorenta (fedorenta de cheiro bom, segundo a maioria), que só serve para piorar os sintomas dos pacientes (mas que desde o tempo da vovó é um campeão de vendas), como já descrevi aqui.
Quase que dá pra dizer: melhor não conte, mesmo!


23 de junho de 2015

LIBRAS


Esse assunto é sugestão da Renata, mãe, leitora e incentivadora (e que passou pela experiência abaixo citada):
É a questão do "Quem te falou? Ele?"
De uma maneira provocadora - mas às vezes tomada como grosseira ou mal educada - quando mães de recém-nascidos ou lactentes "adivinham" seus sintomas (notadamente "dores de ouvido", "dores de garganta" ou "cólicas"), costumo lascar a tal pergunta: "Quem te falou? Ele (a própria criança)?".
Os tais sintomas são quase sempre "chutes", muitas vezes bem longe da trave, quase na arquibancada. Mas são chutes aprendidos na cultura popular, arraigados, difíceis de desentortar.
E justamente por isso "cutucamos" a noção dos pais. Para que parem pra pensar: por que (por exemplo) dor? E por que os órgãos eleitos (ouvidos, barriga)? Por que não, sei lá, calor? Ou irritação com um ambiente barulhento, ou alteração emocional com alguma sensação desagradável sonhada anteriormente ao choro, ou até mesmo alguma dor (ainda que rara num bebê aparentemente saudável), mas fora da lista dos principais suspeitos (ouvido, barriga...).
Imediatismo, raciocínio simplista, crenças, "Maria-Vai-Com-As-Outrismos" são algumas das causas. E não raramente o próprio médico embarca nelas, por ignorância, preguiça ou concordância amiga. 
De quem ainda não fala, precisamos sim da história dos pais. Não dos seus diagnósticos prontos.

19 de junho de 2015

Camacaca


Então vocês fazem a nebulização com o Benotec e...
- O que? Ah, não! Com Benotec não vou fazer, não!
- Ué? E por que que não?
- Tá louco, doutor? Todo mundo fala que Benotec dá problema, faz mal pro coração...
- E você acredita?
- Ah, não sei... Minha vizinha disse que o coração do filho dela acelerou!...
- E?
- Sei lá, fez mal!...
- Desacelerou depois? Morreu? Foi pra UTI ou alguma coisa assim?
- Não sei, acho que não, mas...
- Isso que deu no filho da sua vizinha foi uma reação adversa do remédio. É algo esperado, mesmo na dose correta, na indicação correta, não quer dizer que fez mal, todo remédio que é remédio de verdade pode ter.
- É, doutor, mas sei lá, não tem um remédio melhor, que não tenha essa coisa de reação aí?
- Tem. Se você quiser, pode dar a acebobofilina. Ou então o amboboxol...
- Funciona?
- Não! Mas praticamente não tem reação adversa. Nem adversa, nem benéfica, nem nada.
- Ah, mas aí do que que adianta?
- Adianta que o seu filho toma alguma coisinha enquanto espera a melhora vir sozinha. Ou então piora e aí você se convence da necessidade de fazer nebulização com Benotec, um remédio "de verdade". Pode ter também algum efeito placebobo. 
- Placebobo? Não é placebo?
- Não. É placebobo. Bobo de quem dá dinheiro pra indústria pra ter um efeito psicológico que pode ser de graça. Bobo de quem espera que remédios não tenham algum efeito colateral. Bobo de quem acredita na conversa dos outros, especialmente outros leigos
- Nossa, doutor, o senhor tá com a macaca hoje, hein?
- Macaca? Deve ser alguma reação adversa de algo que eu estou tomando... Vou ler a bula pra checar.

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