Procure por assunto (ex.: vacinas, febre, etc.) no ícone da "lupinha" no canto superior esquerdo

19 de setembro de 2017

Ignorância Não Se Discute


Vivemos em um mundo (muito mais aparentemente do que de verdade) livre.
Se você quiser, meio que pode não vacinar seu filho. Claro, vai ter muita aporrinhação se decidir não fazê-lo. No Brasil, especialmente.
Talvez tenha até que recorrer à justiça. Mas a questão não é essa.
Se você estivesse sentado do meu lado em um consultório há cerca de 30 anos atrás (falo 30 porque é até onde vou, poderia ser 40 ou 50, que a coisa só faria piorar ainda mais) veria porque não faz o menor sentido discutir sobre se vacina ou não o seu filho.
Pode até (e aí me associo com você) discutir sobre uma ou outra, e até mesmo pensar em nem fazer uma ou outra (a BCG é o caso clássico de vacina feita em poucos países ditos civilizados). 
Mas pega apenas um exemplo. Pólio. Se você tem menos de 50 anos não pode nem imaginar o pânico que era viver sob a ameaça dessa terrível doença. Gente morria muito jovem. Gente ficava incapacitada já na infância. Mas principalmente as pessoas entravam em desespero em pensar em estar do lado de alguém que pudesse contaminá-los ou à algum membro da sua família (o livro Nêmesis, do escritor Philip Roth retrata muito bem as vidas associadas à essa tragédia).
Nos Estados Unidos (que é de quem importamos muitas modinhas) essa é uma discussão muito acesa. Pais dão os mais variados argumentos para escapar da vacinação. Inclusive o da liberdade. Certo. Você é (aparentemente) livre. Inclusive para fazer renascer certos flagelos que pareciam definitivamente enterrados. Só porque quer. Por nenhum outro motivo válido. 

15 de setembro de 2017

Que Coisa!?


O menino já entra no shopping chorando:
"Eu quero, mãe, eu quero!"
"O que, filho?" 
"Uma coisa!"
"Que coisa?"
"Uma coisa! Uma coisa!"
"Tá filho, mas que coisa você quer?"
"Uma coisa!" 
E desata a chorar cada vez mais forte, com caretas cada vez mais sofridas. A mãe que adivinhe que espécie de coisa esse filho quer.
Como ele não discrimina, a mãe começa a tentar:
"É brinquedo?"
"Não!", chorando cada vez mais violentamente.
"É de comer?"
"Não!"
"Se não é brinquedo e não é de comer, o que pode ser?" pergunta mais a si mesma que a ele, que agora parece estar quase convulsionando, agarrado por um braço, para não permanecer jogado no chão do shopping, bem perto da escada rolante, onde todo mundo passa.
"Uma coisa, mãe, uma coisa!", repete o menino, nada podendo ser mais claro.
"Tá bom", diz a mãe, "vou comprar agora mesmo uma COISA pra você, pra você parar de me encher o saco!", já saindo do código de conduta da mãe moderna que nada pode que traumatize seu filho, pelo menos não em público.
Vai até a primeira banquinha de coisas infantis que acha e compra uma "coisa" para seu filho, que fica só manjando com um olho entreaberto e outro chorando.
Volta e entrega, a coisa. O menino olha, examina, vira pra um lado, pra outro e diz, já calminho:

"Não tinha de outra cor?"

12 de setembro de 2017

Enfilheirados


Falando com um casal sobre companheirismo dos irmãos pela vida afora lembrei de um caso curioso que eu testemunhei quando jovem:
Quatro irmãos (quatro! nem um nem dois!) que sempre saíam do mesmo colégio sempre à mesma hora e que invariavelmente caminhavam até a sua casa (naturalmente a mesma casa) sem se conversarem. 
E o que era mais esquisito: todos com alguma separação de chão entre eles (algo em torno de uma quadra de distância)!
Foram pelo menos uns dois anos nesse curioso ritual (não me lembro mais deles após esse período, talvez porque eu me mudei de colégio a partir dali).
E ficava sempre pensando: falta de amor? Ódio? Completa ausência de interesses comuns (nem mesmo o que teriam no almoço do dia)? Algum jogo (não parecia, pois todos pareciam muito sérios e algo compenetrados nos seus próprios pensamentos), alguma aposta? 
Não tinha familiaridade com as figurinhas, senão certamente teria perguntado o motivo, curioso que sou. 
Lembrando que à época não havia smartphone, o que teria facilitado esse comportamento meio alienado. Não. Iam meio que olhando o caminho.

Para ver como essa história de "meu filho, arrumei um companheirinho pra você!" nem sempre cola.

8 de setembro de 2017

Peixinho É?


Desfile patriótico de 7 de setembro.
Garotinho lindo no colo do pai, importante político.
E a gente se põe a pensar:
Seguirá a linhagem - como fez o pai com o avô, também ele político importante (visto que político brota em famílias)?
Aprenderá os passos? As tramóias, as maracutaias (pobres indígenas, nomeamos as negociatas emprestando palavras deles)? Saberá fazer cara de sério enquanto enche as malas com dinheiro do povo? Legislará 1% em nossa causa, somente para ser reeleito? Vestirá ternos caros para se diferenciar da ralé que o elegeu? 
É só um menino. Um belo menino. Já tem noção da importância do pai. O que não tem como saber é sobre os tortuosos caminhos que o levarão a se transformar tanto em tão pouco tempo. 

Não é uma sentença. Mas se for, também podemos ter quase certeza que nunca verá uma condenação.

5 de setembro de 2017

Pó Ao Pó


É muito difícil numa "leva" grande de bebês identificar algum deles: tudo muito parecido!
A identidade de cada um de nós se faz com maior crescimento dos cabelos, com a mudança da cor dos olhos, com a postura, com o comportamento, com o "jeitão".
No outro extremo das idades, o mesmo fenômeno vai acontecendo: 
Mesmo aqueles que eram bem diferentes uns dos outros vão tendendo a ficar muito parecidos: os mesmos ombros meio encurvados, umas olheiras mais pronunciadas, cabelos brancos revoltosos, pele fina e seca, gestos lentos, um olhar mais pacífico. 
Faz pensar. No começo da vida, nos igualamos para - de partida - sabermos que somos farinha do mesmo saco. Mais para o fim dela, vamos percebendo que não importa o que tenhamos feito (ou muito mais deixado de fazer), vamos tendo exatamente o mesmo destino. 
O que me parece mais triste nisso tudo é o fato de que no início não saibamos nenhum dos truques para o bem viver, e no fim, nos esqueçamos de quase todos eles.