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22 de agosto de 2014

Uma Versão Melhorada de Mim Mesmo


A selfie me irrita.
Não uma selfie, ou uma ou outra selfie.
É a selfie como mania, como filosofia de vida: ei, mundo, veja como eu sou bonito/metido/feio/engraçado!
É o reconhecimento explícito do nosso egoísmo, do nosso egocentrismo bobinho, da nossa infantilidade.
Quem não quiser que não veja, se defendem os selfistas. Claro. Mas o que irrita é justamente isso: são vistos! Por outros selfistas! E aí o motivo para a concorrência entre as selfies: quem será mais bonito/metido/feio/engraçado...
Não há diferença entre um catálogo virtual de mercadorias de uma loja de departamentos e uma sequência de selfies. Estão todos expostos - apenas no seu exterior - para análise alheia. Que no caso do selfista pede: me admire, me elogie, lembre-se de mim ou então... me esqueça! Não, não me esqueça! Olha como estou b/m/f/e nesta outra (milionésima) selfie!


Para que não paguemos o mico da geração mais umbilicocentrada da história da humanidade proponho algumas othies. O que serão "othies"? Fotos bonitas/metidas/feias/engraçadas dos outros (others, othies, em oposição às selfies, de self). Mas não dos outros filhos, pais, primos, amigos, não. Othies amplas, planetárias, universais, de seres que nem imaginamos o quanto possam ser b/m/f/e, porque estamos muito ocupados fotografando os gomos do nosso abdome trabalhado. 

19 de agosto de 2014

Telefone Sem Fio


Não devo aqui me estender em tecnicalidades, mas já que hoje pacientes têm acesso a tudo quanto é informação, é bom lembrar que...
Quando, por exemplo, você lê uma manchete como a da semana passada : "Pessoas obesas têm incidência maior de câncer" (o que é entretanto mesmo verdade) deve, então, se perguntar (como nós médicos fazemos):
- Todas as pessoas obesas? 
- Incluídas aí fumantes e não-fumantes todos juntos ou separados (visto que o tabagismo é um fator que isolado já aumenta a incidência de vários tipos de câncer)?
- A partir de uma certa idade somente, ou já também na criança?
- Obesos ativos têm mesma incidência?
- Obesos que se alimentam de forma mais adequada têm os mesmos riscos?
- História familiar de câncer foi levada em conta?
- Alcoolismo aumenta essa incidência? 
(muitos desses fatores chamados variáveis, que complicam as análises e a própria conclusão)
- O grupo de pessoas estudadas foi grande ou pequena (e quanto seria esse "grande" ou "pequena")?
- A avaliação estatística foi adequada (ou: adequadamente "traduzida" para a maioria de nós, leigos)?
E, entre outros mas não menos importante, há interesses em se divulgar (ou criar alarme) com esse tipo de notícia (interesse por parte da imprensa, da indústria farmacêutica, da classe médica, dos laboratórios, ou de todos em conluio)?
Não é bem verdade que "ignorância é felicidade", mas já que queremos saber algo, uma ligeira debruçada a mais vale a pena.

Vista Grossa

Falando nisso, me lembrei de um sonho perturbador:
Fui encaminhado a um médico especialista que, logo ao me ver, se estendeu na confortável cadeira e, botando os pés na mesa, me disse de forma confiante (confiante demais):
- Pode deixar, que se você tiver algum câncer, qualquer câncer aí dentro de você, eu vou achar!

(Gulp!)

15 de agosto de 2014

Dá Penas


"Comprei um travesseiro anti-refluxo pro meu filho"
"Péra! Como é que é? Travesseiro anti-refluxo? Existe isso?"
(O Sr. devia saber!) "Existe. E custou caro pra caramba!"
"E no que esse travesseiro anti-refluxo é diferente de outro travesseiro?"
"Não sei. Só sei que está escrito na embalagem: anti-refluxo!"
"Ah... Mas quando você coloca um travesseiro, qualquer travesseiro, para o bebê ficar com a cabeça mais elevada, não faz deste travesseiro um "anti-refluxo"?"
"É, acho que sim!..." (pensando nos "dólares" gastos...)

Essa história é baseada, lamentavelmente, em fatos reais (tentei reproduzi-la ipsis litteris - de novo, lembrando que escondo o nome dos santos - um deles era eu, obviamente!). 
Pais hoje encontram tudo quanto é tipo de artigo para "ajudar" na criação dos seus filhos (agora, assim de relance, dois outros itens "fundamentais" me vêm à memória: um capacete que "desentorta" a plagiocefalia  - a deformidade mais comum do formato da cabeça dos bebês - e um "coador", uma espécie de redinha que separa o alimento da boca do bebê para que este não engula pedações de comida).
Para aqueles que me lêem e pensaram: "quanta bobagem!" digo: "Parabéns, mas vocês caminham rapidamente para a extinção!". Para aqueles que pensaram: "Oba! Onde é que compra?" respondo primeiramente: "Sei lá! Procura aí!"e: "Bem-vindo ao capitalismo, onde o que se fabrica, você primeiramente compra, depois raciocina".



12 de agosto de 2014

H2O + NaCl = Nada

A fumaça de uma nebulização sendo feita numa casa do final da rua


Vez em quando um modismo na medicina reaparece (até porque é modismo!).
Na seção "coisas que você faz e não adianta nada mas mesmo assim você continua fazendo" estão as nebulizações com (apenas) soro fisiológico, sem nenhum medicamento.
É como dançar com irmã. É como botar placa de "não pise na grama". É como baixar o volume da televisão depois que batem na porta. Não adianta nada.
(a não ser, talvez, em casos excepcionais de secreção brônquica abundante e viscosa, principalmente em quem tem dificuldade de eliminar secreções, situações em que o cloreto de sódio a 3%, mais concentrado que o fisiológico a 0,9%, pode ser mais efetivo)
O soro fisiológico nebulizado é veículo para medicações destinadas a agir nos brônquios, principalmente os broncodilatadores (Berotec®  e outros), os corticosteróides (Clenil®, etc.), além do mais discutível ipratrópio. Dificilmente vai ter algum efeito a mais do que irritar seu pequeno filhote (principalmente aqueles pequenos, e que têm medo da geringonça nebulizadora).
É diferente do soro aplicado no nariz, mais direto, muito mais abundante em termos de volume. Além disso, com pouca ou nenhuma boa opção sem riscos no seu uso.


Portanto, não perca seu tempo e energia se não for para incluir "coisas que funcionam" (ou que possam funcionar) naquele "copinho". 

8 de agosto de 2014

Leitinho Isso, Leitinho Aquilo


Imagino que não haja volta: estamos todos vendidos - e por um precinho barato, o da nossa alma - às multinacionais!
E na questão tão formulada aos pediatras, a do leite da criança a partir do sexto mês de vida, é quase unanimidade: leitinho isso, leitinho aquilo. Um vulgar leite de vaca (caixinha, pacote, leiteiro)? Cruzincredo! Nem pensar!
A principal multinacional do leite tem a receita maior que o PIB do país onde ela está inserida (Suíça). Com essa força toda (a do dinheiro), dita normas alimentares pro mundo (incluindo aí os pobres pediatras). Sendo assim, vão todos repetindo a ladainha do "leitinho isso, leitinho aquilo", sem grandes questionamentos.
Numa carta ao editor de "pé de página" da American Family Physician um médico de família americano ousou questionar as tais orientações, pedindo evidências, argumentando sobre o custo para as famílias ao usar as " fórmulas".
As justificativas são sempre as mesmas: o leite de vaca é pobre em ferro e vitamina C (ok), o cálcio do leite de vaca atrapalha a absorção do ferro alimentar (ok), leite de vaca às vezes provoca perda oculta de sangue pelas fezes (ok). 
Solução? Fórmula! Que é feito a partir do que mesmo, hein? Leite de mulheres criadas para este fim? (é melhor não dar idéia!)
Ah, mas a fórmula tem inclusão de ferro, de vitamina C, disso e daquilo...
Mas não deixa de ser leite de...vaca! E se leite de... vaca interfere com a absorção de ferro, de vitamina C, etc., não é a sua inclusão que vai mudar o panorama.
Solução? Menos leite de vaca (da vaca, da caixa ou da lata)! Pra isso servem os outros variados componentes da dieta: para assegurarem a ingestão das vitaminas, do ferro, das fibras, etc.

Não há mesmo justificativas válidas para os leitinhos isso, leitinhos aquilo, a não ser as econômicas!