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27 de junho de 2008

Da Teta ao Consumidor


Para as crianças pequenas hoje muito expostas a sucos e refrigerantes vale a máxima:
“Melhor um mau leite do que um ótimo refrigerante”.
Ultimamente, no entanto, vemos mães muito preocupadas com a transição do leite materno para outro tipo de leite.
Preocupação dos tempos modernos, que nem precisaria existir. Pensa bem: que outro leite a mãe do início do século passado iria oferecer para seu filho no desmame? Leite da vaca, e ponto final! Sem crise*.
-Ah, mas tem o “Não-Sei-Quê Crescimento”, o “Pró-Isso”, o “Anti-Aquilo”...
Bobagem! (na grande maioria das vezes). Altos preços e poucos benefícios.
De novo, pensa bem: pra que me preocupar com vitamina X (não existe, tá?) ou peptídeo XYZ (também não, gente, é hipotético!) se no restante dos alimentos que a criança vai consumir (desde que não consuma “Chips” o tempo todo – eletrônico ou alimentício) ela vai encontrar os mesmos nutrientes (melhores, pois “diretos da fonte” e misturados a outros nobres nutrientes)?
E a outra preocupação, com as notícias sobre contaminação com água oxigenada, soda cáustica, etc? Falaremos noutra oportunidade (não percam, aqui, neste mesmo ma-ra-vi-lho-so b-log, OK?)

*Só não caia na boba conversa da Fernanda Young, em artigo da revista Cláudia...

24 de junho de 2008

Mão na Massa

Ainda falando em apêndice, conheci um cirurgião (não se preocupem, já aposentado) que o retirava “preventivamente” do corpo da vítima, digo, do paciente, operado por outro motivo qualquer – sem prévia anuência, claro – já que “aquilo lá só ia lhe incomodar”!
Ainda que fosse o apêndice, fico a imaginá-lo tomando outras decisões similares:

- Meu amigo, sua cirurgia do estômago foi um sucesso!
- Obrigado, doutor. Correu tudo bem?
- Mais do que bem. De carona, aproveitando a anestesia, retirei suas amídalas. Afinal, não era você que se queixava de que viviam incomodando?
- Sim, doutor, mas é que...
- Ah, e sua vesícula...
- O que é que tem minha vesícula?
- Sua, não! Agora pertence ao nosso patologista, rá, rá! Sabe como é. Daqui a pouco você está com quarenta, não sabe o incômodo que eu lhe livrei, daquelas terríveis dores no abdome.
- Mas, doutor, não vai fazer falta?
- Nada! E mais: seu baço, sabe pra que serve um baço?
- Ãh...
- Pois é. Pra nada, nada mesmo! Saquei-o, OK?
- Ai!
- Ah!...
- O quê, doutor, o quê?
- Andava transando ultimamente?

20 de junho de 2008

Reserva Técnica


Se você não é médico, provavelmente nem sabe o que é um apêndice vermiforme.
Então: é aquele mini-intestino, uma espécie de... apêndice mesmo, situado logo após a transição entre o intestino delgado e o intestino grosso.
Mas... para que serve o apêndice?
Se você respondeu: para ter apendicite, acertou metade da resposta.
E para que mais serve?
Claro, dirá você, para contribuir com o soldo dos cirurgiões.
Também correta. Sem o apêndice para inflamar, dois terços dos cirurgiões gerais do planeta teriam casas sem cozinha e área de serviço.
Mas há uma outra teoria, publicada em artigo recente de biologia e noticiado no New York Times dessa semana.
Segundo os pesquisadores, o apêndice, afastado do fluxo intestinal carregado de bactérias “do mal” provenientes dos alimentos por apenas um minúsculo buraquinho, seria uma reserva de bactérias intestinais “do bem”. Estas bactérias assumiriam o papel de invadir o intestino e se multiplicarem quando o equilíbrio boas bactérias vs. más bactérias fosse ameaçado.
Verdadeiro? Falso? Ainda uma incógnita. Difícil de comprovar. E talvez desnecessário.

Falando em desnecessário, ainda na série “Coisas imbecis que a indústria quer que acreditemos”, há poucos comerciais mais patéticos do que os do sabonete Protex “antibacteriano” (mais patéticos, talvez, apenas seus crédulos consumidores).
Então nestas décadas todas, lavávamos as mãos pra nos livrarmos do quê mesmo? Dos mini-Godzillas?

17 de junho de 2008

Calcanhar Daqueles


Três curiosidades que mostram o quanto pais podem ser não sabedores (para não dizer ignorantes, para não ofender) sobre o teste do pezinho (“Teste do pezinho, o que é isso?”, perguntarão alguns, mas aí já é demais!):
A primeira não é pra se fazer nada com ela:
Quando os pais vêm mostrar aos pediatras o resultado do exame, já podem, de cara, ficar tranqüilos: exames simplesmente entregues aos pais significa que estão normais (casos anormais fazem com que os pais sejam rapidamente avisados – em questão de no máximo poucos dias – para procederem a nova coleta).
Segunda curiosidade (também apenas curiosidade): a maioria dos pais nem tenta decifrar os números constantes no exame (por, segundo eles, “não entenderem nada”). Isto mostra nosso nível educacional (ou de “preguiça mental”, digamos assim*). A constatação da normalidade pode ser feita (pelo menos em termos numéricos) com uma simples noção de intervalo: se o resultado daquela criança se situa dentro do intervalo de normalidade fornecida pelo laboratório (mas, claro, nós pediatras é que “somos pagos pra isso”, no problem).
E o último, mas mais importante:
Uma grande parte dos pais costuma achar que um teste do pezinho normal significa um atestado contra problemas mentais. Aí, sim, mora o perigo! A normalidade do teste do pezinho mais comum, realizado pelo SUS, afasta – e não de forma definitiva – a possibilidade de duas doenças mentais tratáveis, apenas: a fenilcetonúria e o hipotireoidismo congênito. E ponto final. Embora de enorme importância, não fala mais nada em relação a uma grande quantidade de outras causas de retardo.

* Sabe aquela do “Garfield, por que é que você está de olhos fechados?” “É que eu estava no meio de uma piscada e... perdi o interesse.”

13 de junho de 2008

Tóin!

Os traumatismos cranianos (batidas na cabeça, vai) em crianças são causa comum de procura pelos serviços de emergência.
As decisões de radiografar, internar, realizar tomografia computadorizada de crânio não são, com freqüência, muito fáceis.
Dentre as “dicas” apresentadas em consensos recentes estão:
√ em traumas pequenos sem sintomas importantes por 2 horas é pouco provável haver lesão
√ há recomendação de Raio X em quase todo trauma mais importante, não para avaliar lesão cerebral, mas porque há chances maiores de lesão cerebral quando há fraturas
√ quanto menor a criança, maiores as chances de lesão cerebral oculta (não percebida por sintomas)
√ hematomas (manchas roxas) em couro cabeludo costumam ser mais perigosas na região parieto-occipital (acima da orelha) do que na região frontal (testa)
√ vômitos: uma boa regra é considerar mais graves vômitos com duração de mais de 6 horas após o trauma
√ a experiência do radiologista, a localização da casa do paciente (facilidade de retorno ao serviço de emergência), a confiabilidade dos pais são critérios usados para alta do paciente que independem do trauma
√ na análise da necessidade de tomografia, a sedação, os sintomas pós-sedação (que atrapalham uma posterior avaliação da criança) e os riscos não negligenciáveis da radiação devem ser levados em conta
Algumas questões permanecem não respondidas (por ex.: o que fazer com o paciente que está bem, mas apresenta mínimas lesões à tomografia? e o inverso: o que fazer com o paciente que está mal e tem tomografia normal?)