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22 de agosto de 2006

Louco de Calmo


Ainda não o fiz (ainda não enlouqueci o suficiente), mas vai chegar o dia em que para alguma destas mães que se plantam na nossa frente dizendo algo como: “Meu filho tem dor de barriga há meses, quero (mando seria a palavra mais adequada) que faça todos os exames que tem de ser feitos!” responderei tão-somente:
“Pois não!”
Apanharei então em silêncio o bloquinho de exames do convênio (são quase sempre pacientes de convênios, por que será?) e redigirei nele demoradamente:

Solicito:
- Medição dos hábitos intestinais
- Avaliação do psiquismo materno e paterno
- Dosagem do nível de carboidratos, gorduras e conservantes dos alimentos oferecidos
- Dosagem de lactose alimentar
- Medição dos níveis de ansiedade escolar (pais e criança)
- Medição dos sintomas associados
- Dosagem sangüínea dos medicamentos utilizados para o alívio das dores, bem como a mensuração dos seus efeitos
- Dosagem de cálcio, fósforo, ferro, níquel, cádmio, magnésio, polinésio e etc.
- Ultrassonografia das orelhas: duas (quem sabe não achamos ali alguma coisa?)
E o exame principal:
-Exame físico

E então, na consulta de retorno, olharei (também em silêncio, com o olhar grave de quem é o único capaz de entender os resultados) a papelada e direi:
“Como suspeitávamos, é um típico caso de sincrombose eclética subaguda”.
E me congratularei por tão brilhante diagnóstico, enquanto prescrevo rapidamente alguma coisa para o paciente, porque “tempo é dinheiro”, já dizia Hipócrates!

PS.: 1)por ora tenho me contentado em, no lugar disso tudo, coçar discretamente a minha omoplata esquerda, que já vem mostrando sinais de afundamento há dois ou três anos.
2) a “bronca” não é com o fato de se fazer exames, e sim com o desprezo de tudo o mais que envolve o ato médico, como a anamnese e o exame físico (em muitos problemas pediátricos, os exames são positivos em menos de 1% dos casos)!

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