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1 de fevereiro de 2019

Coma Sem Pensar (?)



Essas coincidências acontecem comigo algumas vezes. Estava pensando sobre o assunto e dei de cara com o artigo do site médico "Medscape", falando exatamente o que eu pensava. Diz mais ou menos o seguinte:
Devemos meio que parar de tentar descobrir supostos efeitos de tal ou tal alimento, ou "dieta", pois "quase todos os estudos que são realizados, se baseiam em má ciência".
É isso!
Já virou piada pública (quase tanto quanto o diagnóstico médico de "virose") a história do "ontem inimigo, hoje amigo" das dietas.
Simplesmente porque é virtualmente impossível se confiar em estudos dietéticos. As variáveis são quase infinitas, e praticamente impossíveis de isolar, por mais que se tenha boa vontade e dedicação (alguns estudos emocionam, pela boa intenção...).
Não que isso nos libere de comer como um avestruz. Percebemos em nós mesmos (certamente o melhor laboratório dietético no que nos diz respeito, mas ainda assim muito limitado!) as diferenças entre não sair do McDonald's e comer com alguma qualidade. 
Já as inferências mil (muitas muito bem embasadas em ciência, especialmente de curtíssimo prazo, e em ratos de laboratório!) de que estaremos "salvos" comendo isso ou deixando de comer aquilo, essas se assemelham a "chutes", algumas até muito perigosas...

20 de novembro de 2015

Cybersickness


A turma que não desgruda das telas dos tablets, smarts e computadores já tem um nome para o mal estar que sentem de vez em quando - mas pode ser que não pegue:
cybersickness.
Cybersickness pode ser traduzido como? Mal estar cibernético? Não parece que vai dar ibope...
Mas o que é?
Coisa que a gente vê toda hora: dores de cabeça, uma leve tontura, alguma contração muscular, náusea leve ou sintomas estomacais. Com intensidade proporcional ao número de horas jogando, vendo filme, etc. Aparentemente excluídas as atividades em que o olhar fica mais "parado" na tela, como a simples leitura de ebooks em tablets, por exemplo (ufa, então, para mim!). Isso porque é o movimento ocular intenso (por exemplo, nos games) que cria a sensação parecida com o movimento dos barcos e navios no sistema de equilíbrio do organismo (apenas que, como explica o blog Well, do New York Times, no caso do enjôo de movimento - dos navios - o corpo mexe e o olhar fica parado, no cybersickness os olhos mexem e o corpo fica parado, com resultados semelhantes).
Com uma gama grande de diagnósticos diferenciais, que precisam ser pensados pra não virar a história da "virose", o "chute" que inclui todos sintomas num pensamento diagnóstico só.

Gente mais propensa a sofrer? Enxaquecosos e quem já enjoa fácil aos movimentos, como nas viagens.

20 de novembro de 2012

Nome Aos Bois


Identificar a causa da febre das crianças pequenas como “virose” já virou piada no mundo todo.
Mas o pior (ou melhor) é que na grande maioria das vezes a causa das febres é mesmo algum vírus!
Foi o que mostrou novo estudo deste mês.
Em 75 crianças abaixo dos 3 anos com febre acima dos 38ºC sem outros sintomas quaisquer (somente febre!), exames de tipagem viral no sangue ou em secreção nasal identificou vírus causador de doença em 76%.
O estudo conclui citando que nesta faixa etária a presença de infecção por bactéria (mais grave) sem outros sintomas a não ser febre gira em torno de 1%.
-Ah, então...
Devagar com as conclusões!
A maioria destas crianças precisa de boa avaliação médica (conversa, estetoscópio, otoscópio e palitinho na goela inclusos) para afastar clinicamente infecção mais séria.
Ainda é inviável se fazer exames para detectar os vírus mais comuns (adenovírus, herpesvírus, enterovírus) causadores dessas febres.
 

26 de agosto de 2011

A Gripe Que Não Cura Nunca! - Viroses de Repetição na Infância

(leia o título acima com voz cavernosa, e veja que efeito assustador ele dá! Não sei se já foi feito, mas é um ótimo título para um filme de terror - gênero “terror pediátrico”, gênero incipiente, mas muito promissor).

Essa percepção por parte dos pais, a de que a gripe não está curando há muito tempo, é errada. Errada por quê?
Porque sintomas gripais podem durar o que? Sete dias, no máximo.
Quando o prazo é muito maior, o que está se vendo não é uma gripe ou um resfriado, mas mais de um! E não são raros os resfriados que se emendam uns nos outros em certas faixas etárias, notadamente em crianças nos dois primeiros anos de freqüência em escolinha ou creche.
São casos em que os pais se confundem nos prazos. A coriza, a tosse, os roncos no peito estão presentes desde quando? Muitas vezes dá impressão de que há meses eles existem (ainda mais se levando em consideração que os pais alongam a percepção do tempo ao verem seus filhos doentes – 12 horas podem parecer dois ou três dias, por exemplo).
- É, mas espere, e as febres?
As febres costumam sinalizar o início (ou reinício) dos quadros gripais.
Então numa criança com coriza, roncos e tosse que volta a fazer febre, essa febre mostra um novo vírus que se aproveita do terreno propício da virose anterior ou, mais raramente, alguma infecção bacteriana, também se aproveitando do catarro acumulado ou da defesa um pouco “baleada”.

15 de julho de 2008

Tapa na Cara

Uma doença causada por vírus que ainda não atrai tanta atenção da mídia (pelo menos não até que se descubra a vacina para ela, quando então passará ser a nova “queridinha” da mídia) é o eritema infeccioso.
Há picos de incidência a cada 4 a 7 anos, e este ano parece ser um deles.
É uma virose muito comum (60% dos adultos têm anticorpos contra o parvovírus B-19, o causador da doença) e, na grande maioria das vezes, com sintomas semelhantes a qualquer outra.
O que tem de diferente?
Apresenta um sinal interessante nas crianças, o sinal do “tapa na cara”, entre o 3º. e o 7º. dia: as bochechas ficam caracteristicamente avermelhadas, com a área ao redor da boca mais pálida.
Em 10% das crianças afetadas aparece dor nas articulações, que podem durar até perto de 2 meses.
Outro detalhe é o risco de transmissão à gestante. Porém neste caso o problema maior é o susto e a confusão com a rubéola, pois os sintomas na gestante são parecidos (febre, lesão de pele, dores nas articulações), o que faz médicos e pacientes desavisados se preocuparem à toa (a rubéola traz grande risco à gravidez nos primeiros meses, enquanto que o eritema infeccioso é pouco perigoso).

4 de abril de 2008

Chega de Dengue! (Ou: Seal Veio ao Brazeal)


De novo, vou pitaquear* sobre algo que não me diz muito respeito. Não pela especialidade, mas pela localização geográfica**:
Se você não mora no Rio de Janeiro e ganhasse de graça uma passagem para lá, você deixaria de ir pela ameaça da dengue?
O cantor Seal não pensou assim. Foi, estupefato – disse no show – aos lugares turísticos, com floresta e tudo. Bob Dylan também não se assustou.
Desinformação? Coragem? Acredito que não. Devem ter sido informados de forma profissional e equilibrada sobre os reais perigos da epidemia.
A dengue deixou de ser epidêmica. É endêmica (constante), agora. E por mais terrível que sejam os óbitos imputados a ela (falha de todos, de governos à população – apenas para lembrar, em quase metade das casas visitadas por agentes de saúde, estes são impedidos de entrar para o combate ao mosquito), é “apenas” mais uma doença*** das que vemos por aí. Que, claro, expõem as mazelas da saúde pública de forma mais manifesta.
Mas que não é problema maior do que a gripe (ainda mata mais do que dengue). Ou - para não falar só de doença - a violência, o alcoolismo ou o trânsito (desgraças associadas, da mesma forma endêmicas, mas que têm rendido menos ibope e vigilância).

As sutilezas da endemia:
Querem ver o enrosco da atuação pediátrica em situações de epidemia globalizada (da mídia)?
O “lado bom” da dengue: pais não mais aceitarem simplesmente um diagnóstico de “virose”.
O lado ruim (mais um) da dengue: pais não mais aceitarem simplesmente um diagnóstico de “virose”.
Perceberam?
Pois é (alguém já viu alguma criança pequena doente se queixar: “Ai, estou com uma dor nas juntas!”?).

* dar pitaco, meter a colher, intrometer-se onde não foi chamado
** Moro no Sul (“Sul Maravilha”, têm apelidado os mais ao norte). César Maia, prefeito do Rio, comentou, muito apropriadamente, que sua cidade só deixará de ter dengue no momento em que se tornar mais “temperada” – ou seja, nunca mais!
*** Peraí, mas – há somente 3 meses atrás – a preocupação não era com a febre amarela?

14 de novembro de 2006

Inimigo Oculto


Não sei quantas milhões de vezes já ouvi a pergunta:
-Se a criança tem febre é porque tem alguma infecção, não é?
Sei que pais não gostam de ouvir o diagnóstico “provável virose” e sinceramente não acho que tenham que gostar.
Agora, que é o diagnóstico mais comum na maioria das crianças febris, é. *
O termo “virose” engloba os resfriados, as gripes e algumas doenças mais específicas. Exemplos comuns são a hepatite viral, eritema infeccioso, dengue, citomegaloviroses e outras, que muitas vezes (a maioria das vezes, na verdade) não chegam a apresentar sintomas mais “floridos”, por questões como saúde prévia à doença, estado imunológico, menor agressividade do vírus, etc.
Além disso, “invasões” da corrente circulatória por bactérias (as chamadas bacteremias ocultas, que apresentam uma freqüência de até mais de 20% dos casos de crianças febris abaixo dos 2 anos de idade) também podem e costumam ser autolimitadas, mas são rotuladas como “viroses” erroneamente, embora a evolução para a cura seja da mesma forma a regra para a maioria.
Então, empregue-se o termo que se empregar, o que importa é a compreensão do que ocorre no organismo febril.
Penso que já seja hora de se nomear esta situação mais apropriadamente. Aqui vai uma modestíssima sugestão:
PROCAPNI: provável reação orgânica causada por agente patogênico não-identificado.
Que tal?
(Não, acho que não gostaram...)
* Lembrando: outras doenças não-infecciosas (como as doenças reumáticas, por exemplo) também podem causar febre.