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19 de dezembro de 2008

Vara-Paus e Pedras


Pedras da indústria alimentícia e dos irados endocrinologistas picaretas devem ser endereçados ao site do British Medical Journal, não ao meu.
Em editorial recente, o nutricionista da Universidade de Glasgow de nome sugestivo (Lean, "magro" em inglês) chama novamente atenção para o fato de que a indústria propaga e vende (e vende muito) alimentos que teriam a propriedade de nos tornar “mais saudáveis” tirando isto ou colocando aquilo nas suas composições nutricionais.
Enquanto isso, vemos mais pessoas supostamente mais bem informadas, obesas e doentes.
“Efetivo e seguro” (veja bem “... e ...”!) para perda de peso – lembra o autor do artigo – “somente exercícios físicos, alguma restrição calórica e, em termos de medicação (ai, lá vai!), orlistat e sibutramina. Para os casos severos, a cirurgia bariátrica como último recurso”.


Verão chegando, prancha de surf à mão, tanguinha de crochêt (já passou da moda?) e uma triste constatação:
Nessa minha idade, quem não passa pela faca tem duas alternativas:
O viço da pelanca ou os penduricalhos da gravidade.

16 de dezembro de 2008

Carguinha Pesada


Um artigo recente no jornal francês Le Monde mostra que lá - assim como aqui – costumamos cavar nossos próprios buracos e depois nos queixamos da dificuldade de sair deles.
O artigo cita outro publicado por duas pediatras nos arquivos franceses de Pediatria dando conta da “clientela” dos serviços de urgências pediátricas.
São casos e mais casos de consultas “de rotina” (“falsas urgências”, então), que param nas emergências por vários motivos:
◊ desconhecimento da população do que é realmente uma emergência médica
◊ esgotamento dos serviços médicos habituais
◊ trabalho materno (o que facilita o acompanhamento das mães no horário noturno, “emergencial”)
◊ medicalização da puericultura: pais que, por buscarem seus pediatras nos menores problemas, sentem-se incapacitados para lidar com qualquer situação diferenciada
◊ facilidade de acesso ao serviço (residência próxima ao hospital)
◊ “impulsividade”: pais que tentaram isto ou aquilo (remédios caseiros, medidas aconselhadas por parentes, etc.) e que, de uma hora para outra, precisam resolver o problema da criança
◊ incapacidade das famílias de lidar com pressões e angústias, por menores que possam ser (típica dos tempos modernos)
◊ “consumismo”, que também se manifesta em serviços médicos
E aí é aquela coisa: pediatras esgotados (nem que seja por terem que repetir as mesmas informações) e mal-humorados, pacientes insatisfeitos (e algumas vezes agressivos), queixas administrativas (faltam profissionais que se candidatem ao trabalho, por motivos óbvios).
O que fazer? (é o que também pergunta o artigo)
Aguardamos as respostas.

Du Capeta

“Não mexa com o Machado”, avisou Mainardi. Quase que ia concordando. Mas a Globo mostrou que dá pra
relê-lo, modificá-lo. Claro que dá. Michel Melamed lançou vôo pro estrelato. Elephant Gun, a música, caiu como uma luva.

Sapatas Voadoras

Péra. Não me diga que o Bush não andou
treinando (a gestão inteira, ao que parece). Ninguém desvia tão bem do apreço popular dum dia pro outro.
Lula, vai
tu também treinando!

12 de dezembro de 2008

Pés No Chão

Num país composto majoritariamente por analfabetos (funcionais ou não), aculturados, preguiçosos intelectuais e telespectadores preferenciais (mas tá melhorando, devagarinho tá melhorando...), imagina a dificuldade de se fazer compreender.
Acontece conosco, médicos, como acontece em várias outras áreas.
O busílis é que muitas das vezes nem nos damos conta de que não estamos sendo compreendidos (ou, algumas vezes pior, estamos sendo mal compreendidos).
Quando, ainda por cima, os assuntos médicos mexem com a esfera íntima, sexual, então, aí a coisa fica feia.
Rótulo de sabonete íntimo, por exemplo. Tá lá no modo de usar (claro, é bom se certificar do modo de usar): aplique na região genital externa...
Cuma?
“Região genital externa”? Isso fica onde, minha filha?
Nunca me esqueço dum episódio ilustrativo do nosso abismo cultural no tempo de faculdade.
Durante a aula prática da matéria Sexualidade Humana (é, tinha aula prática disso, mas não era, como a princípio pensávamos, nenhuma sacanagem), uma de minhas colegas, algo pudica aparentemente, pergunta para a simplória paciente:
-Quantas vezes a senhora faz amor por semana?
-Como?
-Amor. Faz quantas vezes por semana?
-Hein?
A aluna olha para os lados, meio envergonhada.
-Quantas vezes a senhora transa por semana?
-Como assim?
Inconformada com o alheamento da pobre paciente, ela manda:
-Trepa, minha senhora! Manda ver, dá uma raquetada, espanta a coelhinha!...

(liberdade de imprensa é isso: qualquer coisa que eu escreva pra esse blog, o pessoal do conselho editorial aceita!)

9 de dezembro de 2008

Fraco Apoio


Doença reumática. “Reumatismo” (termo vago, mas citado na pergunta dos pais) é a dúvida em muitas crianças que se apresentam com dores em membros (pernas, sobretudo), dores tão comuns.
Mais do que a história do paciente e o exame clínico, o que parece fazer diferença na aceitação do diagnóstico pelos pais é o exame laboratorial.
Acontece que – como bem mostra comentário recente no jornal americano de reumatologia pediátrica – os dois exames mais utilizados para diagnóstico da doença reumática em adultos (fator reumatóide e anticorpo anti-nuclear) não servem para as crianças.
No caso do ANA (anticorpo anti-nuclear), por exemplo, é comum o resultado positivo em crianças perfeitamente saudáveis. Além disso, a maioria das crianças com artrite idiopática juvenil não apresenta fator reumatóide positivo (ao contrário dos adultos).
Daí é aquela coisa: confiança na palavra do médico (baseado nos dados de história e exame) e... ponto final.
Isso nessa época de super-valorização de exames!

Aumente o volume

Para uma criança pequena, um mero
pum pode ser uma experiência assustadora.

E aí, mudando inteiramente de assunto:

Quando um
gigante cai, o barulho é enorme.

2 de dezembro de 2008

Ramadão do Cartão


E, por falar em compras, você, no último sábado, aproveitou seu dia com as crianças e se meteu num shopping para a gastança do fim de ano, não foi?
Então perdeu a oportunidade (não chore, ano que vem tem mais!) de participar dum movimento crescente - mas ainda muito tímido – iniciado na França a cerca de 2 anos, o “Dia Sem Compras”.
Seus criadores têm a intenção de aproveitar a crise econômica mundial para criar uma nova consciência (contra tudo e contra todos): começa a haver menos recursos planetários, os grandes consumidores somos apenas 20% da população e, o pior da história, se de um lado esse consumismo todo escraviza países inteiros (218 milhões de pessoas abaixo dos quinze anos ajudam – e muito – a alimentar esta triste indústria), do outro, não tem servido para nos tornar mais felizes.
Você, que quer continuar com sua meia gorda neste Natal, dirá:
-De que adianta? Compraremos tudo no domingo, no dia seguinte...
É isso aí. Por enquanto é assim. E mesmo no sábado estacionamentos de shoppings e supermercados estiveram cheios.
Porém, tudo tem um começo.