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3 de julho de 2007

Desiderato


Uma pergunta que me faço muito nestes últimos anos é a seguinte:
“Qual o grande desejo material que as crianças com alguma condição financeira têm hoje em dia e pelo qual vão ter que ansiar (esperar) para ser realizado?”
Foi um dos temas da interessante palestra “O Desejo e Sua Formação”, proferida pelo psicólogo e psicoterapeuta infantil, professor da PUC do Paraná Ivan Capelatto na TV Cultura, na noite de domingo passada.
Parte da palestra pode ser conferida na entrevista com ele no site da Gazeta do Cambuí, de Campinas.
Embora possam conferir a original, quero ressaltar (ou retocar levemente, ainda que não autorizado) alguns trechos da mesma entrevista:
“Como o acesso aos bens de consumo tem sido fácil, a sociedade moderna tenta fazer o mesmo com as relações afetivas, procurando torná-las mais rápidas, descartáveis - como os próprios bens de consumo”.
“A realização dos desejos precisa de paciência, de luta, de espera por um momento especial que deve chegar. As relações humanas também precisam do tempo, da mágica das interações, e mesmo das brigas”... “Ao optarmos por relacionamentos fáceis - que muitas vezes prescindem do contato real, como as relações mantidas pela Internet – sentimo-nos progressivamente impotentes emocionalmente, vazios. Tornamos-nos desorientados no desejo, sem nem mesmo saber o que desejar”.
“Hoje as pessoas (não-lúcidas) temem muito a solidão, a rejeição: não ser forte fisicamente, não ser belo, não ter uma grande quantidade de bens materiais. Para compensar esse medo, tornam-se compulsivas pelo prazer imediato: pelas drogas, pelo álcool, pelo sexo, pelo vandalismo, pela velocidade, pelo som alto, etc”.
“Não temos mais o desejo de uma missão na vida, de um vínculo verdadeiro fora de nós. Somos narcisistas, o que nos torna desumanos na maneira de sentir, de desejar”.
-Quem vive mais relações virtuais do que reais teme vínculos verdadeiros?
“Não. Na verdade, não acredita mais nestes vínculos. Seja por ter sofrido em experiências próprias, seja por ter visto exemplos ou pelo combate que hoje em dia a mídia faz a estes vínculos.”
Como arremate, disse o psicólogo:
“O consumo na sociedade atual é uma resposta desesperada para a ausência dos reais desejos. São tentativas de sentir prazer e felicidade que duram minutos. Se nossa sociedade não parar para pensar no que estamos fazendo acontecer na cabecinha de nossos jovens e crianças, criaremos um mundo de seres narcísicos, que vão se digladiar constantemente. E já não estamos vendo isso?”

29 de junho de 2007

Estudo de Caso


Após anos lidando com o paciente O.A.P. (um caso dificílimo, principalmente para mim), descobri a duras penas que sofre de um crônico vício cognitivo: a antecipação e amplificação de problemas. Uma simples visita agendada do carro ao mecânico na manhã seguinte o transforma num expert em canto de galos.
Embora esta maneira de pensar não seja exatamente apenas um problema (este brilhantíssimo texto, por exemplo, é fruto de uma fria noite em claro), acarreta ao referido paciente males que vão desde sua incômoda insônia à incipiente hipertensão arterial (cada problema com seu corolário patológico, e cada qual possivelmente relacionado ao outro).
Que tratamento tem sido recomendado a O.A.P?
Um nutricionista recomenda que coma mais vegetais (da família das crucíferas, principalmente) e evite o sal. O cardiologista roga para que engula definitivamente seus diuréticos e vasodilatadores e não descuide da cota diária de exercícios. O psicólogo ortodoxo (meio Jungiano, embora não considere esse adjetivo ofensivo) acha, claro, que O. não resolve, há décadas, sua fixação na fase (ops!) anal.
Quanto aos métodos alternativos, tem sido sugerido que O. pratique um pouco de meditação, prática que se esforça por dominar, ainda que a posição de lótus lhe seja um pouco incômoda.
O psiquiatra, ainda indeciso de qual transtorno trata, recomenda que O. tome – não necessariamente nesta ordem – um antidepressivo, um estabilizador de humor e um benzodiazepínico. O dermatologista recomenda que consulte um médico, qualquer médico. A ex-patroa recomenda que O. pague sua pensão devida. O vizinho de baixo recomenda que O. mude definitivamente de endereço.
E assim vai meu paciente pelas esquinas, mais um caso incompreendido pela moderna sociedade terapêutica (embora esta sociedade seja muito melhor que a antiga, que resolveria definitivamente o problema de O. com aplicação de sanguessugas no seu cérebro doente).

26 de junho de 2007

Duas Medidas


Dois dos sites médicos americanos mais visitados tratando sobre o mesmo assunto: cólicas. Aquele choro intenso dos bebês nos primeiros meses de vida.
Num deles, o WebMD, aprende-se que a cólica pode (deve?) ter relação com alimentos ingeridos pela mãe que amamenta, que a cólica é na maioria das vezes provocada por dores no abdome do bebê que chora e etc. Nota-se um pequeno e “discreto” comercial no centro do texto: Mylicon, tanto lá quanto aqui um remédio (inútil, diga-se de passagem) para as cólicas do lactente*.
No outro site, o da Associação Americana dos Médicos de Família, diz lá a causa do problema: não se sabe (assim mesmo, curto e grosso!). Pelo menos não “chuta”, nem tenta enganar ninguém. Tratamento medicamentoso? “Não há remédio que seja efetivo para cólica”. Nota-se também - e principalmente - a ausência do patrocínio da indústria farmacêutica.
Ah, então, tá...
Patrocinado, é uma coisa.
Sem patrocínio, deve ser outra coisa totalmente diferente.
Pois então!
*O curioso é que neste próprio site há várias outras páginas explicando que cólica não tem a ver com dor, que não há nada de errado com bebês que choram muito, etc, etc.

(há quase 20 anos que eu estou falando isso, acho que tô começando a ficar chato – é que eu ainda sou minoria!)


Tão de Brincadeira

A brincadeirinha da eleição das 7 maravilhas do mundo moderno só pode ser isso mesmo: uma interessante brincadeira (do mesmo tipo que elegeu, por exemplo, o Maradona como melhor jogador de futebol de todos os tempos, à frente de Pelé – Ah, então tá!...).
Em primeiro lugar, como dar o voto quando só se conhece um dos “candidatos” (a maioria dos votantes não deve conhecer nenhum)? Agradeço enormemente à ONG responsável pela eleição o envio das passagens para todos os lugares, para que possamos votar de forma consciente.
Além disso, quem vai votar mais nas suas próprias maravilhas: os petrificados habitantes da Ilha de Páscoa ou os australianos ou os ingleses?
E mais: embora tenha vivido várias vezes a inenarrável experiência da vista do nosso Cristo Redentor, desculpe, mas a estatuazinha – que é nossa real candidata - até que é meio mixuruca (claro, perto das outras concorrentes!). Acho que só não perde para aquele amontoado de pedras toscas do Stonehenge (se era pra incluir a Grã-Bretanha, porque não mandaram o logo o Big Ben?).
Agora me diga: dá pra, ao se deparar com um castelo como o Neuschwanstein (mais fácil de falar do que Schwarzenegger) ou com o Templo de Taj Mahal, honestamente cravar o voto no nosso candidato? Fala sério...

22 de junho de 2007

Tchuquitchuqui


No começo da vida (até por volta dos 3 anos) crianças chupam o dedo basicamente porque crianças pequenas são “máquinas de sugar”. É instintivo, é básico para sua sobrevivência.
A grande maioria das crianças abandonará o hábito nesta tenra idade (e a tendência é que seja mais fácil quanto menos os outros se incomodarem com ele).
Alguns poucos mais renitentes serão provavelmente encarados como “problemas”.
Porém, como mostra o interessante filme Thumbsucker, na maioria das vezes o “problema” é conseqüência de desajustes emocionais – sejam eles grandes ou pequenos - com raízes na família.
Tente (pelo menos tente enquanto criança) assistir às brigas dos pais, resistir às pentelhações dos irmãos mais velhos, se antenar com as mil novidades dessa até aqui curta vidinha, disputar espaço no sofá com um irritante poodle – que às vezes parece mais querido da mamãe do que você mesmo – para ver se não dá vontade de chupar um bom dedo!
Então, para os que estão ficando muito velhos (pelo risco de, a partir de certa idade, afetar o alinhamento dos dentes) algumas recomendações:
-Distraia a criança, propondo atividades que o faça retirar o dedo da boca (sem, de novo, mostrar que se incomoda com o ato).
-Nunca critique o hábito. Apenas elogie quando deixa de fazê-lo.
-Não tenha muita pressa de eliminar o hábito se o seu filho estiver passando por momentos mais difíceis (como separação dos pais, viagem de algum parente ou perda).

19 de junho de 2007

Shhh! (Um Pouco de Onomatopéia)



Talvez a parte mais difícil, ao se dizer que determinada criança é portadora de “sopro no coração”, seja a explicação do que é, exatamente, um sopro.
Quando o médico coloca o estetoscópio na área correspondente ao coração no peito do paciente, costuma ouvir apenas dois tipos de “barulho” (os batimentos do coração):
Tum! – proveniente do fechamento das válvulas que separam os átrios dos ventrículos, antes do coração contrair, na chamada...
Sístole (sangue para fora do coração – aqui sem maiores “barulhos”)
E...
...Tac! – causado pelo fechamento da válvula da aorta, a artéria que leva sangue para o corpo todo, quando o sangue que foi para frente “tenta” voltar (se a válvula da aorta não se fechasse antes da próxima contração, o resto de sangue que “tenta” voltar pela aorta se chocaria com o “novo” sangue que vem dos átrios).
Pronto!
Então, normalmente é isso: Uma seqüência de “Tum, tac, tum, tac, tum, tac”...
Entre um “tum” e um “tac” o sangue sai dos ventrículos (a parte do coração que bombeia o sangue). Entre um “tac” e um novo “tum” o sangue enche os ventrículos.
Simples, não?
-É, mas e o sopro?
O sopro é um barulho ouvido entre – ou juntamente, dependendo da causa do sopro – os batimentos. Fica mais ou menos assim:
“tum!” - “shhh!” - “tac!” - “tum!” - “shhh!” - “tac!”…
-“Shhh!”? Parece barulho de alguém que está pedindo para se fazer silêncio...
É justamente o barulho que o médico ouve quando diz que alguém tem “sopro” no coração!
-E as causas? E as causas?
(veremos adiante...)

Obs.: há um site que mostra os sons ouvidos no coração muito interessante (em inglês).