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8 de maio de 2020

Nenhum Assunto


Nenhum assunto médico mexeu tanto com a cabeça dos não-médicos quanto esse coronavírus.
Nenhum assunto médico mexeu tanto com a cabeça dos médicos quanto esse coronavírus.
Nenhum assunto mexeu tanto com governantes.
Nenhum assunto mexeu tanto com a mídia.
Nenhum assunto mexeu tanto com como se leva(va) a vida no planeta.
E, também, nunca se teve tanta incerteza, tanta mudança de opinião, tanta discórdia entre médicos, não-médicos, mídia e governantes.
É por isso que ando mais calado. Não só pela "máscara" (que agora a Organização Mundial da Saúde "mandou" chamar não mais de máscara, mas de "proteção facial" - era o que estava faltando para resolvermos a pandemia!...). Mas também pela percepção de que quase não há mais o que falar. Quase não há mais o que ouvir. 
Tudo de errado já foi dito.
Tudo de certo, também. O problema aqui é semelhante à questão do vírus: onde está? Onde esteve? A verdade passou - ou tem passado - pelas nossas mãos, pelas nossas ideias, ou passa longe? Estamos cegados por ele a ponto de não mais enxergarmos obviedades médicas, científicas, políticas, econômicas, humanas?
Quem vai sair como "o que estava certo" no final de tudo isso? Não é uma ironia global, no momento em que estamos mais engajados, conectados, informados, informatizados, é justamente o momento no qual estamos nos sentindo mais perdidos?
Sairemos mais fortes? Não apenas na imunidade, mas na humanidade? Veio para o "bem"? Ou veio apenas para nos abrir os olhos - de novo - para nossa insignificância? 

E se veio para isso, não veio, justamente, para "o bem"?

2 de janeiro de 2015

Evoluídos


Bem adentrados no âmago do século 21 estamos.
Século da ciência, da informação, da medicina de ponta (ainda que para poucos).
Longe da obscuridade, da magia, da crença em qualquer coisa pelo desconhecimento das causas de tudo.
No passado, mães levavam seus filhos a benzedeiras. Passavam água com açúcar nos olhos das crianças com conjuntivite. Tratavam o "amarelão" dos recém-nascidos com chá de picão. Aplicavam supositórios aromatizantes no ânus dos pequenos para "expulsar" o catarro dos seus pulmões. Passavam sebo de carneiro para as dores nas juntas. Medicavam supostas dores nas barrigas dos seus bebês com substâncias ou inócuas ou perigosas. 
Mas o mais assustador: cidadãos do passado decidiam que qualquer coisa que pudesse fazer mal a eles desaparecia simplesmente desacreditando as opiniões especializadas - ou não dando ouvidos à elas.


Felizmente, evoluímos...

2 de fevereiro de 2018

O Ser Saudável e o Parecer Saudável


Há muito tempo que se sabe que o "ser" saudável é um conceito que pode ser muito conflitante com o "parecer" saudável.
O grande exemplo atual é o que se busca como aparência saudável em academias. Há muita gente saudável nelas. E especialmente se comparados aos pobres "couch potatoes" (ainda que um ou outro malhador "se vá" inesperadamente antes da sua contraparte comilona e sedentária, mas não é, claro, a regra!).
Outro exemplo claríssimo (sem trocadilhos!) é o da turma que se expõe ao sol: muito saudáveis na aparência, mas até que ponto a bela cor proporcionada pelo sol pode compensar o envelhecimento celular (não é só a pele que envelhece no sol, ela é uma amostra de outras células do corpo), as alterações de código genético proporcionadas pela radiação, a hiperprodução de radicais livres?
Mesmo para os parâmetros menos visíveis aos nossos olhos, é muito difícil comparar quem está mais saudável. Até porque saúde é um conceito global. Você pode estar com todos os exames em dia, mas não muito longe de bater a cachuleta por motivos mentais, por exemplo.
O que quero dizer com isso?

Nada, acho. Apenas que talvez devamos nos resignar mais com o que temos, sem deixar de perseguir (relaxadamente) uma saúde melhor - ou menos "aparente".

20 de julho de 2020

Tudo na Vid é Covid


Já escrevi em algum lugar aqui (lá longe, há muito tempo!) que quando seu foco está em algum lugar, a tendência é você enxergar quase tudo com este mesmo foco.
Assim: 
Você está interessado em comprar um carro (coisa antiquada, admito!). Nesse momento, tudo o que você enxerga na rua são... carros!
Da mesma forma, o médico. Se ele tem lido alguns artigos sobre, digamos, aspergilose broncopulmonar alérgica, a tendência é a de achar pelo menos um caso de ABA pela frente. Não porque ela realmente passa a existir onde não havia. Mas porque ou vai estar muito mais atento para esse diagnóstico, ou porque vai "forçar a barra" para ele, mesmo (procurando sintomas, pedindo mais exames, etc.).
Aí vem a (agora) velha conversinha:
Qual a doença mais ouvida, lida, procurada, venerada, odiada, aludida, encaminhada nos últimos meses?
Qual a chance de que se ache um covid em tudo o que se vê (mesmo pelos médicos, que são quem deveria estar com o pé atrás com diagnósticos apressados)?

Me diz você se já viu isso onde você põe os olhos...

24 de março de 2006

Longe dos Olhos, Dentro do Pulmão


Por enquanto temos mais com que nos preocupar do que com vírus que mata galinhas, lógico.
Não custa, entretanto, ficarmos de olho no “bichinho” (no vírus, não na galinha, porque nesta já estamos de olho sempre).
Dois artigos publicados este mês nos dois mais prestigiosos jornais científicos mundiais (Nature e Science – “sorry, no links”) explicam porque estes vírus não são ainda uma grande ameaça.
Para que os vírus (bem como hormônios, medicamentos e tudo o mais) penetrem nas nossas células precisam dos chamados receptores (as nossas células são abarrotadas deles, cada modalidade servindo unicamente para determinada função).
Ocorre que os receptores (moléculas onde os vírus “atracam”, digamos assim) para o vírus da gripe aviária, o H5N1, localizam-se basicamente nos alvéolos pulmonares, bem mais para dentro da árvore respiratória do que a grande maioria dos vírus de gripes comuns, que têm receptores no nariz e brônquios.
Daí as duas grandes diferenças: difícil de transmitir de uma pessoa para outra (vírus da cavidade nasal ou brônquios transmitem-se muito mais facilmente através do espirro ou tosse, por exemplo) e mais difícil de tratar, visto que ficam “escondidos”.
Há a possibilidade de que as mutações incluam esta afinidade diferente pelos receptores, mas, segundo os cientistas, não será tarefa muito fácil (provavelmente não nos próximos anos: até lá, estoques de remédios já deverão ser suficientes).
Mas, como estes “bichos” não se dedicam a outra coisa nas suas breves vidas a não ser atormentar seres mais evoluídos, nunca se sabe...
(espero que nenhum vírus leia isto)

14 de novembro de 2014

O Clube do Prato Limpo


Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Cornell mostrou que pelo mundo inteiro aquilo que você põe no prato é quase exatamente igual àquilo que você irá comer, ou seja, o estômago costuma ter mesmo o tamanho dos olhos, exceto - e aí o motivo para chamar a    atenção dos papais ansiosos - na faixa etária pediátrica (seja porque não sabem medir o volume necessário para a saciedade, seja porque não têm certeza se gostarão do que puseram no prato, seja por simplesmente não terem aprendido a "limpar o prato" ou se recusarem a fazê-lo por "birra").
Em épocas de vacas (e crianças) gordas devemos valorizar - e ensinar - a perceber dois avisos fundamentais:
Fome: muito se come "por falta de coisa melhor para fazer", principalmente em crianças engaioladas dentro de casa (ou com poucos amigos, ou longe dos pais por boa parte do dia). Na presença da fartura calórica, até mesmo adultos têm dificuldade de saber se irão comer por fome (como diz o guru da boa alimentação Michael Pollan: "Se você achar que está com fome, pergunte-se se é fome suficiente para comer... uma maçã! Se a resposta é negativa, possivelmente não é fome de verdade. E no caso da resposta ser positiva, coma... uma maçã!").
Saciedade: talvez mais difícil ainda de perceber, é o aviso do organismo de que "chega", você já comeu o bastante. Como há um pequeno "delay" (demora) entre o preenchimento das necessidades e o aviso (parte do reconhecimento se dá não ao nível do estômago, e sim a nível intestinal e mesmo cerebral após alguma absorção dos nutrientes), o melhor mesmo é ter uma noção pelas experiências anteriores ("costumo comer X, então X será a quantidade colocada no prato").