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29 de abril de 2006

"Disease-Mongering": Que ... é Essa?


Jornais médicos (principalmente os independentes) têm alertado sobre uma crescente prática da indústria farmacêutica: a “criação” ou o exagero de doenças (ou mesmo de sintomas que não são exatamente doenças) veiculadas na mídia (médica e leiga), para que possam ter seus lucros aumentados com a venda de remédios para estas condições.
É o que tem sido chamado de “disease-mongering” (“promoção da doença”) pela imprensa, um termo já relativamente difundido.
Exemplos claros (embora nem de longe os únicos) são: a “criação” do transtorno disfórico menstrual (a famosa “TPM”), que ultimamente ganhou o status de algo que deve ser medicado, a valorização excessiva da “síndrome das pernas irriquietas”, a transformação dos altos índices do colesterol sangüíneo ou da própria obesidade em “doença”, o exagero no diagnóstico de doenças como a depressão, a ansiedade, o transtorno bipolar, o TDAH, etc.
E tome remédio!
Veja que complicado é isso. Quando escrevemos sobre assuntos médicos em meios como este, não temos, é claro, interesses da indústria farmacêutica por trás. Mas... e os divulgadores mais importantes, são livres para serem críticos?

13 de março de 2009

Peitudo


“Somos uma nação de tristes criaturas obesas, hipercolesterolêmicas, hipertensas, diabéticas, osteopênicas e deprimidas à beira de um precipício a espreitar urubus: cânceres, ataques cardíacos, derrames, demência, fraturas e tudo o mais de pior. Tememos pelo nosso futuro. Ensinamos nossas crianças a também viver com medo”.
“Precisamos de toda nossa coragem ao confrontar as dificuldades de mobilização, dores no peito, azia, dores de cabeça, dores na barriga, constipação ou diarréia, impotência, falta de sono e mesmo pernas irrequietas. Nenhuma criança nova pode ser simplesmente irritável, nenhuma criança maior pode ser simplesmente ativa, desafiadora ou abaixo da média em suas performances. Nos é dito que estas coisas são sintomas, ou pelo menos indícios de doença. Somos uma sociedade vigilante”.
“Somos também pessoas modernas abençoadas pelos remédios. Para nós, a mortalidade é uma abstração, uma besta amorfa que podemos domar pela aplicação dos mais recentes insights científicos. Todas as temerárias e imprevistas ameaças ao nosso bem-estar devem ceder à correta escolha do tratamento a ser ministrado”.
...
“Estar bem não é a ausência de doenças. Estar bem é sentir-se invencível: nada, ou nada mais deverá acontecer a mim que eu não possa dominar. Rara é a pessoa cuja sensação de invencibilidade não possa ser perturbada – quando não pulverizada – pela voz da autoridade.
Quando esta autoridade calha de ser um médico e há pouco ou nenhum motivo para alarme, trata-se do que se chama medicalização. (...) Quando você deveria ser tranqüilizado mas, ao invés disso, você é ensinado a temer, isto é algo que se chama disease mongering”.

Estes são trechos do excelente livro “Worried Sick” (“Doentes de Preocupação”) do médico americano professor da Universidade da Carolina do Norte, Nortin Hadler, ainda sem tradução no Brasil (obs.: é um livro de leitura um pouco “pesada”, pois excessivamente técnico para leigos, ainda que não incompreensível).
Dentre outras “verdades estabelecidas”, Dr. Hadler destroça o abuso de medicações perigosas para situações triviais (quando deveríamos ser ensinados – coisa difícil - a suportá-las), a proliferação de exames com resultados discutíveis como a mamografia de rotina, o toque retal para câncer de próstata, a densitometria óssea (e os tratamentos que ela origina), o tratamento cirúrgico (as famosas “pontes de safena”) para muitos dos males coronarianos, etc.
Dr. Hadler, é claro, não tem saído ileso desta queda de braço com grupos médicos, indústria farmacêutica e de materiais cirúrgicos. Foi e tem sido perseguido por estes grupos. Entretanto, não se cala.
Se não por nada, seu livro nos serve para adquirirmos um posicionamento mais crítico em relação às decisões médicas que nos são apresentadas como “únicas soluções” para nossos problemas.
(Ah! Claro que ele bate também em outras modalidades terapêuticas: osteopatas, homeopatas, e demais “patas”...)