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16 de março de 2012

Queime Depois de Ler

Meu amigo, minha amiga, vou revelar um segredo meio perigoso que você, leigo em medicina, pode não ter muita noção, e que provavelmente vai assustar:
Dose de medicação.
Há muita (vamos lá de novo, muuiita!) variável envolvida em como sua medicação vai agir no seu organismo – desde marca do remédio, temperatura (sua ou externa), idade, estado de hidratação, saúde ou doença, tipo de doença, associação de medicações, associação com alimentos, e por aí vai (acredite, essa é apenas a ponta do iceberg das variáveis envolvidas!)...
E aí você sinceramente acha que algum médico (médico é aquele sujeito que por ter passado por 6 anos de faculdade acha inocentemente que sabe tudo sobre o corpo humano e suas relações com o mundo – ou seja, um enfermeiro de Deus, por assim dizer) saberá (ou mais exatamente, na maioria dos casos, se lixará em) levar em conta todos esses fatores na hora de decidir se é 1 vírgula 5 ou 2 vírgula vinte cinco miligramas na hora de preencher a duodécima receita do seu (dele) dia?
O que quero dizer com isso tudo?
Saia correndo e nunca mais volte em algum consultório na sua vida?
Não (sem radicalismos!).
Primeiro: perca sua inocência (tá mais do que na hora! Afinal, você já tem o que?, uns... anos!)
Segundo: se aquele sujeito (o tal enfermeiro de Deus), que supostamente deveria acertar sua prescrição, já tem tanta chance de errar (e acredite, muitos estão esforçadamente tentando acertar), imagina você (ou sua vizinha de cerca, ou o balconista da farmácia, ou sei-lá-quem-mais)...
Terceiro, e aí meu argumento mais esperado: tá vendo? Quem manda gostar tanto de remédio (ou, por extensão, de médico)?
Não é – pensando em tudo isso – melhor investir numa vidinha mais saudável, não esperando que alguma embalagem de minissaia vermelha vá nos consertar dos pés à cabeça?
Ah, então vou usar uma plantinhas!
Ei, volte aqui! Então você não aprendeu nada?

13 de março de 2012

Agulha ou Bala de Canhão?

Teoricamente todo processo febril da criança pode terminar no uso do antibiótico.
E aí, quando isso acontece, fica difícil fazer o julgamento retrospectivo: seu uso foi realmente necessário?
Com alguma freqüência a resposta será negativa. Em situações em que a febre durou muito pouco (em termos de tempo e/ou de intensidade) a partir da introdução do antibiótico, por exemplo, ainda que hajam bactérias muito sensíveis ao antibiótico utilizado (aquelas que morrem apenas com o seu cheiro, como se costuma dizer).
Outra situação muito comum é a sintomatologia prévia ao uso, como no caso de crianças com pouca ou até nenhuma febre (parece absurdo? cansamos de ver diagnóstico de infecções bacterianas em que nem febre houve!).
Para alguns pais, isso pouco importa. Importa é resolver a situação do momento e parar de se preocupar!
Bão se sesse! - como diz o caipira.
A noção de poupança (como em quase tudo na vida, inclusive em processos biológicos) não pode ser desprezada. Resolvo o problema daqui, crio um maior ali adiante.
Bactérias são, como sabemos, sábias plagiadoras do milagre da transformação da água em vinho, no sentido inverso: aprendem a driblar seus inimigos químicos com facilidade inigualável no reino... (o que mesmo? animal? vegetal? monera? procarionte? – deixa prá lá!).
Então.
Usar pouco, pelo menor tempo possível, e levando em consideração o tamanho do inimigo a ser combatido (fatores determinados pelo médico, mas nos quais você, com seus conhecimentos, pode dar uma “pitacada”, OK?).

9 de março de 2012

Come, Senão Vou Te Patê!

Uma doença que até hoje ainda não foi catalogada (como se precisássemos de mais doenças para catalogar) – até porque não é exatamente uma doeença - é a “tentativa de foie gras infantil”.
Foie gras, você sabe, é aquele patê assassino preparado com o fígado dum pobre ganso, obrigado a digerir uma quantidade colossal de alimento, o que causa sua doença hepática para nosso delicioso repasto.
Então. Muitos pais de crianças magrinhas (tadinhas!), mas com disponibilidade de alimentos, tentam burlar seus apetites (ou a falta deles) literalmente tascando comida goelinha abaixo!
Resultado: queixas freqüentes de dor abdominal, vômitos ocasionais e consultas pediátricas de pais insuspeitos, preocupados com alguma real doença, demandando que se façam exames.
E ainda mais curioso: muitas vezes há a preocupação com algum irmão obeso, que come demais!

6 de março de 2012

Os Louros do Empate

Sabe aquela coisa de botar dez crianças para competir e dar medalhas para todas, da primeira à décima, todas com igual valor?
A estratégia de dar méritos a todos, para que não se baixe a auto-estima de ninguém pode estar criando “monstrinhos inúteis”, segundo artigo do neurocientista David Rock no site Psychology Today.
Nenhum pai ou mãe atual suporta muito uma frase atravessada do tipo “você pode fazer melhor, se esforçar-se mais”.
Mas a atitude que o autor do artigo chama de “pais helicópteros”, que ficam sempre sobrevoando a cabecinha de seus filhos para que nada de errado ocorra com eles, pode ser muito prejudicial, pois não dá chance às crianças de vivenciarem a experiência enriquecedora de conseguirem algo por mérito próprio (experiência que a neurociência tem chamado de “obtenção de um maior status”, ou seja, de se perceber melhor que os outros, ou mesmo do que seu “eu anterior”).
“Seres humanos são programados para obterem melhor status”, diz Rock, “vemos isso na sociedade o tempo todo, como quando, por exemplo, esperamos horas na fila para obtermos um autógrafo de um livro que nem vamos ler”. “E não é o elogio fácil, mas a percepção de que se conseguiu realizar algo difícil – não acessível a todos – é que faz com que nos percebamos melhores e capazes, inclusive no nível dos circuitos cerebrais de recompensa”.
Não se trata de detonar o incapaz. O "x" da questão é buscar desafios naquilo que cada um pode fazer de bom.

2 de março de 2012

Pacotaço

Em certos assuntos da saúde infantil, às vezes temos que falar mais claramente.
Quando nossos pequenos pacientes vêm aparecendo com depósitos de gordura espalhados pelo corpo (“pneuzinhos”, ainda que alguns sejam verdadeiros Michelins) deveríamos cumprimentar pais (e sociedade) dizendo:
“Parabéns, vocês acabam de ganhar um novo órgão!”
Mais ou menos como ter ganho um novo pâncreas, apenas que no caso do pâncreas, um órgão endócrino que joga a favor do organismo.
Os depósitos gordurosos não têm “cara” de órgão. Não têm cara de pâncreas, de supra-renal ou de tireóide.
Mas são!
Produzem hormônios, proporcionais ao seu volume. Hormônios que jogam contra o organismo, tendendo a perpetuar o excesso de peso, dificultando a ação da insulina (o que se chama de resistência insulínica, prévia do aparecimento da diabete tipo 2, com todas suas conseqüências), aumentando inclusive os níveis de hormônios causadores da fome (ou diminuição da saciedade).
Encaremos a pança de forma diferente (principalmente para aqueles que já foram mais magros, os gordinhos “não genéticos”). Cortemos esse excesso de bobagens que a sociedade de consumo entulha nossas crianças e adolescentes. E mexamo-nos. Não fiquemos com “peninha” (ah, é só um suquinho... ah, é só mais um danoninho!..., tadinho!).
Não há nada mais tadinho do que termos que iniciar tratamento insulínico para toda uma vida em crianças que por culpa da sociedade onde não escolheram para viver se tornam diabéticas!