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15 de março de 2016

Sabe Nada!


Sabe qual é o problema?
Quando o paciente já vem com seu diagnóstico de predileção:

"Não é a adenóide?"
"Não, não é a adenóide".
"Mas não tem que fazer um exame pra ver a adenóide?"
"Um exame para ver a adenóide pode ser feito. Mas o problema do seu filho é a respiração nasal prejudicada pelo fato de usar chupeta o tempo todo associado aos resfriados próprios da idade".
"Então pode ser a adenóide mesmo..."
"..."

Seja pelo fato de que se eximem de algumas culpas (como no exemplo acima, em que poderiam estar tentando diminuir o uso da chupeta), seja pela busca da solução mais "mágica" ou mais definitiva ("operou, resolveu", no caso acima).
Em muitos casos o "é, não é" é apenas o que vai interessar. Pior: quando "não é", vai se procurar o médico que diga que "é". E aí, quando isso acontece: "Viu, falei que aquele outro não sabia nada?".


11 de março de 2016

Regimes


Estávamos falando de filhos tirânicos na postagem anterior.
Agora, algo sobre o "regime" dos pais:
Pais hoje estão muito democráticos. É claro que é bom pois, entre outras vantagens, desenvolvem a capacidade de negociação e melhoram a auto-estima dos filhos. 
O busílis é quando a aparente negociação e a democracia tem como resultado o enfraquecimento da autoridade dos pais.
É aí que devemos pender pro lado do autoritarismo.
É a história do:
"Que horas você tem que dormir? Não é às 10?"
"É, mas hoje tem um programa que eu quero ver que... É, mas você vai dormir mais tarde... É, mas o Gean dorme sempre depois da meia-noite... É, mas..."
"Aqui em casa, vai ser às 10 e ponto final!"
A "crise de autoridade" é um fenômeno difuso. Tem complicado a relação dos pais com os filhos, mas também de professores com alunos, de governos com cidadãos, de clientes com servidores, de empregados com patrões, etc. 
Não se pode educar para a servidão. Não nos dias de hoje. Mas escolas, instituições, empresas, cidades e países não andam se todos formos apenas... contestadores. Há que se entender o lugar que cada um deve ocupar. E isso era pra começar em casa.

8 de março de 2016

Tirânicos


Tirânicos costumam brotar dos engraçados, dos petulantes, dos ridículos, dos pretensiosos, dos "bobinhos".
Deixem crescer. Não podem seus ambiciosos galhinhos. Verão o que pode suceder.
Donald Trump, candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, é o personagem da vez. Com uma campanha só menos ridícula que suas propostas, de tão bobo parece inofensivo. Melhor não dar a ele algum poder.
Crianças e adolescentes com tendências tirânicas suscitam risinhos de admiração dos seus pais. É novidade toda aquela personalidade numa criatura pequena ou imatura. Além disso, denota inteligência, esperteza, qualidades que os pais admiram. 
Suas respostas, desejos, vontades, manias vão ganhando corpo. Até se transformarem em condições inegociáveis. Já sem sorrisos, sem graça. E, às vezes, sem saída.


Tirânicos não crescem da noite pro dia. Precisam do solo fértil da condescendência de alguns ou de muitos. Nutrem-se do vazio das vontades dos outros para expandir suas próprias. Mas podem e devem ser mantidos no seu lugar devido, acompanhando o crescimento dos outros, respeitando seu espaço.

4 de março de 2016

Odorado


É muito comum que os pais façam seus "diagnósticos" pelo faro.
Por exemplo, o "cheirinho" da garganta da criança pequena. Não significa quase nada, exceto pelo fato da respiração bucal (num mero nariz trancado) impedir a renovação adequada da saliva. Inflamações banais (por alergia, por inflamação viral) também causam o odor mais acentuado. Ou seja, "cheirinho" pode, sim, indicar alguma coisa (ou mesmo uma "disfunção"), mas raras vezes vai contribuir para algum diagnóstico importante.
Outro exemplo: xixi. É bem verdade que se pode fazer alguns diagnósticos pelo aspecto - ou mesmo pelo odor característico - da urina. Mas são fatos raros, e o simples exame básico da urina ao microscópio revelará muito mais que a visão "a olho nu".
Cocô: é uma grandeza o que as mães se preocupam com o cheiro do cocô. O cheiro das fezes tem muito a ver com o que se come (e como se come, ou onde se come e, principalmente a combinação do que se come, o que abre possibilidades infinitas de aspecto das fezes). A lembrança que a gente faz às mamães (caso elas tenham esquecido) é: "cocô fede"!
Como se vê, poucas pistas para doenças baseadas nos cheiros. Ainda mais em tempos de medicina "tecnológica".

1 de março de 2016

Amarelinha




O olhar para a pessoa "amarela" sempre foi um olhar preconceituoso - como de resto para alguém de qualquer outra cor (os verdes, marcianos, e os roxos estando no ápice da lista, visto que estes provavelmente estão mortos).
Até um passado recente (antes das vacinas de hepatite e das melhorias sanitárias) via-se muita gente amarela, com causas de gravidade variável. 
Esse número diminuiu muito. 
É talvez por isso, pela relativa raridade das outras causas que, quando o recém-nascido apresenta uma icterícia, os olhares vêm (e vêem) feios. Ainda mais em casos benignos mais prolongados, como a "icterícia do leite materno". Há uma impressão geral de que se "tenha que fazer alguma coisa", quando na verdade a alteração da cor da pele melhora com o tempo.
É mais uma daquelas coisas em Pediatria que temos (um pouco) que parar de olhar...