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29 de abril de 2016

Poucas e Boas


Acho que não é novidade pra ninguém que o atendimento de pacientes em consultórios tem se tornado mais complexo com o passar do tempo.
No caso da Pediatria, não por algum motivo médico propriamente.
Por causa do volume de informações e pela maior (muito maior) demanda dos pacientes.
Por isso, não há - e tem pouca chance de haver - uma "crise profissional" na área médica.
Novos médicos - venham de onde vierem, desde que capacitados - serão sempre necessários, aparentemente.
É a coisa da "medicina individual", um conceito que nem sei se existe, mas que tem sido (aparentemente, de novo) desejado pelos pacientes.
Há algumas questões não resolvidas aí. A que custo, por exemplo, isso vai se fazer. Um médico não pode se dedicar a poucos pacientes por um honorário irrisório (a não ser em regimes autoritários que o obrigue a fazer isso, como em Cuba até recentemente). Assim como pacientes não devem esperar por um atendimento "de primeiro mundo" em Pronto Atendimentos abarrotados.
Pacientes informados são desejáveis na medida em que adiantam os tratamentos, mas atravancam o bom andamento com solicitações inconvenientes ou mal interpretadas.


A era da informação criou esse "monstro", e teremos que conviver com ele, não há volta. É como pedir pra jogarmos fora nossos smartphones. 

26 de abril de 2016

Expert


Engraçada a mãe expert.
Mais ou menos assim:

"Seu filho cresceu mais nestes últimos 2 meses".
"Foi por causa do leite que eu dei pra ele".
"Não, o leite tem pouco a ver com isso. Isso é uma característica genética. Quem tinha que crescer, vai naturalmente crescer".
"Não, doutor. Foi esse leite. Deu pra ver. E agora essa febre, por causa dos dentes que estão nascendo..."
"Essas febres são devidas a algumas doenças virais comuns nessa fase da criança, nada a ver com os dentes".
"Não, doutor, essas febres são, sim, por causa dos dentes. Já aconteceram duas vezes nesse último mês. E na última, com diarréia".
"Diarréia por causa dos dentes?".
"É".
E do jeito que a conversa vai, é o pediatra que vai aprendendo com a mãe.
"Por que você acha que ele ainda não está andando?"
"Na minha maneira de ver, é por conta dessa curvatura do pezinho".
"Pedimos exames? Algum especialista, quem sabe?"
"Não, doutor. Ainda vou esperar até completar 1 ano e dois meses. Há alguns casos na família. Se até lá não andar, levo a um ortopedista e recomendo a ele uma fisioterapia".

Então tá.

19 de abril de 2016

Sangue na Meleca




Uma bizarra estátua de um médico coletando fezes de uma criança (Filipinas)


A presença de sangue no cocô das crianças traz junto alguns dilemas.
As causas vão das mais simples (leve fissura anal, por exemplo) até as mais sérias (úlceras secundárias a causas mais graves, como alguns tipos de cânceres, só para dar um exemplo), e variam muito de acordo com a faixa etária, como acontece com muita coisa em pediatria.
Como uma regra geral muitas vezes aceita pelas famílias, sangramentos leves raros ou de curta duração podem ser só observados, se o paciente encontra-se de resto bem.
Convém sempre uma boa investigação da história pessoal e familiar.
Fotos do cocô com sangue (de um simples celular, por exemplo) também podem ser muito úteis.
O chato é quando não se pode protelar a investigação, pois dois dos exames mais recomendados (o raio X contrastado e a endoscopia baixa) apresentam dificuldades técnicas e logísticas (apenas poucos centros de referência os fazem, principalmente em crianças muito pequenas), e são referenciados aos especialistas, gastroenterologistas pediátricos.



15 de abril de 2016

Mais Um Pouco de Política


"Vilma, desce daí, já falamo, desce!" "Desde que você subiu aí só tá fazendo bobagem!"
"Por que só você? Olha a carinha do Michel, ele veio pra brincar e você não deixa? Desce, vai?"
"Vilma, pra que gritar? Por que? Desce e tira a faixa! Tá todo mundo olhando! Dá essa faixa, que a gente dá uma toda vermelha pra você, da cor que você gosta!"
"Vilma, olha a Marina, por que você não deixa a Marina subir um pouquinho? Ela tá louca de vontade!"
"Vilma, não morde! Não morde! Só porque você tem esses dentões tem que ameaçar de morder todo mundo? É por isso que o Baraque não vem mais pra cá, de medo!..."
"Ó o Dudu, chegou o Dudu! Ele tá torcendo pra você cair. Esse Dudu, também, é maldoso! Mas se você tenta se equilibrar aí em cima, ele puxa e você vem com tudo!"
"O que? Quem chamou o Serginho? Aquele não é o Serginho, Vilma, é o Colin Firth!"
"Vilma, desce, tamo pedindo!... Vilma, tamo mandando!!" "Não, tá bom, tamo só pedindo, não precisa, não precisa ficar braba!" "Vilma, desce, por favor" "Vilma!!" "Por favor!..."
"Ai, não, ai não! Vai chamar o Luis Inácio! Não faz isso, Vilma! Vocês dois, quando se agarram aí em cima, ninguém mais tira! Parece ovo grudado na frigideira, parece queijo derretido na chapa! Não, não essa dessa chapa que nós tamo falando! Nada de chapa, chega de chapa..."
"Vilma, desce!"
"Ô, diacho! Desce daí!!"


12 de abril de 2016

Salada Causal


As "teorias infecciosas" estão por toda parte.
Infecções prévias poderiam causar uma gama enorme de problemas médicos posteriores (algumas vezes décadas depois).
Que tipo de problemas médicos?
Doenças alérgicas, doenças chamadas auto-imunes (significando anticorpos dirigidos de forma incorreta à órgãos do corpo acometido pela infecção), doenças psicológicas e psiquiátricas, e por aí vai. Penso que muito mais vem por aí (a homossexualidade, por exemplo, ainda que não seja um problema médico, vai ter sua causa "infecciosa" defendida).
É verdade que muito disso pode e deve ser confirmado. 
Ocorre que é muito difícil - senão impossível - confirmar a maioria das hipóteses, visto que infecções (assim, "genéricas") ocorrem em todos, indistintamente. Que germe causa o que, e em quem? Que papel relativo tem a genética? Em que medida os fatores genéticos são influenciados pelos germes? E pelos outros fatores (como no caso das pressões sociais nas doenças psiquiátricas)?
A salada é grande.
O que incomoda (a mim, pelo menos, incomoda muito) é a postulação dos tratamentos sem uma base confirmada. Medicamentos "anti-imunidade", biológicos (e caros, por isso deveríamos estar atentos) já estão sendo testados para tratar todas essas condições acima, com resultados contraditórios (mas lucrativos para os laboratórios farmacêuticos).